
A composição da chapa majoritária do governador Elmano de Freitas (PT) voltou a entrar em movimento nos bastidores da política do Ceará. Apesar de a base governista já ter definido o senador Cid Gomes (PSB) como candidato à reeleição, a segunda vaga ao Senado permanece aberta e passou a ser o centro de uma articulação que envolve a Federação União Progressista (União Brasil-PP), interesses nacionais e o equilíbrio interno da própria coalizão governista. Portanto, o movimento pode merxer também com a chapa da oposição já informalmente anunciada.
Apuração do Focus Poder junto a diferentes fontes ligadas ao Palácio da Abolição, à Assembleia Legislativa e a dirigentes partidários indica que as negociações para aproximar a União Progressista da base de Elmano continuam em curso e ganharam novo fôlego nos últimos dias. Embora dirigentes da oposição afirmem que o acordo com Ciro Gomes (PSDB) está consolidado, interlocutores do governo sustentam que o cenário nacional modificou significativamente as condições políticas em que aquela aliança foi construída. Por enquanto, a aposta com maiores chances é de que a oposição contará com o apoio que é essencial para a campanha de Ciro Gomes.
O fator nacional
A principal mudança decorre das dificuldades encontradas pelo PL para consolidar uma aliança nacional com a Federação União Progressista. Nos últimos dias, reportagens de O Globo mostraram que dirigentes nacionais da federação passaram a discutir, inclusive, a possibilidade de neutralidade em alguns estados, diante das divergências sobre a composição da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). O próprio presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, reconheceu publicamente que uma aliança nacional com União Brasil e PP tornou-se difícil.
Essa mudança repercutiu imediatamente nos estados. No Ceará, integrantes do governo avaliam que uma eventual flexibilização da estratégia nacional amplia o espaço para soluções regionais, especialmente onde existem dirigentes da federação com boa relação institucional com o Palácio da Abolição.
Nome de Moses entra no jogo
Segundo apurou o Focus Poder, o principal alvo da articulação continua sendo o deputado federal Moses Rodrigues (União Brasil). Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que o parlamentar segue sendo tratado, dentro do núcleo político do governo, como o nome preferencial para ocupar a segunda vaga ao Senado na chapa de Elmano. A avaliação é que sua eventual candidatura produziria um efeito político de grande alcance.
Além de incorporar uma parcela importante da União Progressista ao palanque governista, fortaleceria a estrutura eleitoral da chapa e reduziria o potencial competitivo da oposição. Nenhum dirigente do governo confirma oficialmente essa negociação. Nos bastidores, entretanto, ela é descrita como “ativa” e “permanente”. Esse fator explica o fato de até aqui o nome de Luizianne continuar fora das falas de líderes da coalização governista.
A matemática da eleição proporcional
Um dos argumentos utilizados pelos defensores dessa aproximação envolve a disputa para a Câmara dos Deputados. Interlocutores observam que os dois principais nomes do União Brasil com capacidade de impulsionar a votação da legenda — Capitão Wagner e Roberto Cláudio — deixaram a disputa proporcional (deputado federal) para integrar a chapa majoritária da oposição.
Na avaliação dessas fontes, essa mudança altera os incentivos internos da federação. Sem seus principais puxadores de votos para deputado federal, cresce o interesse em construir uma estratégia que preserve o desempenho da bancada federal, fator diretamente relacionado à distribuição futura do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral.
Uma federação dividida
O caso cearense possui uma característica singular. Embora a Federação União Progressista seja presidida, no Estado, por Capitão Wagner, que integra a oposição, os dois partidos que a compõem possuem lideranças com relações distintas com o governo. No PP, o principal nome é o deputado federal AJ Albuquerque, integrante da base governista. No União Brasil, o diretório estadual é presidido por Moses Rodrigues, que mantém diálogo institucional com o governo, embora o partido participe formalmente da aliança de oposição.
Essa divisão interna explica por que o tema nunca deixou completamente a mesa de negociações, mesmo após o anúncio da chapa oposicionista. Capitão Wagner, entretanto, nega qualquer possibilidade de mudança. Em declaração recente ao jornal O Povo, foi categórico ao afirmar que a chance de a federação migrar para a base de Elmano é “zero”.
O impacto sobre Luizianne
As articulações também repercutem entre os partidos da esquerda. Dirigentes da Federação PSOL-Rede passaram a acompanhar com preocupação o avanço das conversas envolvendo Moses Rodrigues. O motivo é simples. Hoje, a deputada federal Luizianne Lins (PT) é o principal nome defendido por esse campo político para ocupar a segunda vaga ao Senado na chapa governista.
Caso a negociação com Moses avance, as possibilidades de acomodação de Luizianne na composição majoritária diminuem significativamente. Nos últimos dias, a parlamentar intensificou sua mobilização política, recebeu manifestações públicas de apoio de movimentos sociais e segue defendendo sua candidatura. Até o momento, contudo, a vaga permanece indefinida.
A hipótese Gabriella Aguiar
Outra discussão que passou a circular nos bastidores diz respeito à vaga de vice-governador. Caso a chapa seja formada por Elmano de Freitas, Cid Gomes e Moses Rodrigues, todos homens, interlocutores do governo avaliam que aumentaria a pressão política para incluir uma mulher na composição. Foi nesse contexto que voltou a surgir o nome da vice-prefeita de Fortaleza, Gabriella Aguiar (PSD).
Segundo fontes, essa hipótese passou a ser discutida informalmente por integrantes da base, o que poderia alterar o desenho inicialmente atribuído ao PSD, que tinha o ex-vice-governador Domingos Filho como nome mais citado para a vice. Não existe, porém, qualquer decisão formal sobre essa possibilidade, tampouco manifestação pública do partido.
Cenário segue aberto
Apesar da intensidade das conversas, nenhuma definição deverá ocorrer antes das convenções partidárias. O governismo mantém oficialmente a posição de que a chapa ainda está em construção. Na oposição, prevalece o discurso de que a União Progressista permanecerá ao lado de Ciro Gomes. Nos bastidores, porém, há indicadores de que as negociações seguem acontecendo.
E, neste momento, a principal incógnita da sucessão estadual deixou de ser apenas quem ocupará a segunda vaga ao Senado. A questão passou a ser se a maior federação partidária do país conseguirá permanecer unificada no Ceará ou se o movimento observado no cenário nacional acabará produzindo reflexos também na política cearense.
O que é fato: há negociações e interlocução entre setores do governo e lideranças da União Progressista; Moses Rodrigues é citado por diferentes fontes como um dos nomes considerados para o Senado; Capitão Wagner nega qualquer possibilidade de mudança de lado.
O que permanece no campo das articulações de bastidor: a eventual adesão da federação à base governista, a retirada de Luizianne Lins da composição majoritária e uma possível substituição de Domingos Filho por Gabriella Aguiar na vaga de vice. Até o momento, nenhum desses movimentos foi oficialmente confirmado pelas lideranças envolvidas.
Humor da União Progressista no cenário nacional
Um sinal significativo dos humores foi a ausência dos presidentes nacionais do União Brasil, Antonio Rueda, e do PP, Ciro Nogueira, na convenção da federação em São Paulo que oficializou a candidatura de Guilherme Derrite ao Senado e reuniu o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL). Oficialmente, ambos alegaram compromissos em outros estados — Rueda no Maranhão e Ciro no Piauí.







