
Antes dos freezers iluminados, dos sorvetes importados e das embalagens coloridas que hoje disputam espaço nas vitrines, Fortaleza conheceu um tempo em que a felicidade chegava devagar, empurrada por um carrinho de picolé que avançava pelas ruas de calçamento, sob o sol inclemente da cidade.
Nos anos 1960, os picolés eram, em sua maioria, produtos simples, quase artesanais. Faziam-se com água, açúcar e refrescos de frutas, muitas vezes preparados com o inseparável Q-Suco, depois congelados em formas metálicas. Eram duros, cristalizados, derretiam rapidamente sob o calor de Fortaleza e deixavam marcas não apenas nos dedos, mas também nas camisetas e nos uniformes escolares.
O de morango, de um vermelho quase sobrenatural, tinha ainda uma característica inconfundível: depois de algumas mordidas, deixava no rosto da meninada um vistoso “bigode magenta”. Era uma espécie de prova material de que o picolé havia sido devidamente degustado.
Os sabores tinham sotaque cearense: tamarindo, cajá, tangerina, graviola, castanha, coco e morango. O de tamarindo era azedinho e refrescante; o de cajá parecia concentrar, em um único palito, todo o perfume tropical do Nordeste; e o de castanha era uma verdadeira especialidade regional.
Mas talvez a lembrança mais poderosa daquela Fortaleza não seja gustativa.
É sonora!
O anúncio da felicidade vinha acompanhado de um pequeno sino preso ao carrinho do “doceiro”. Bastava o conhecido trim-trim ecoar pela rua para que a meninada abandonasse imediatamente a bola de meia, a raia, a bicicleta Monark ou a partida de bila na calçada.
Era uma espécie de chamado irresistível.
Nos recreios escolares, a cena se repetia. Mal soava o sinal anunciando o fim das aulas, e a garotada já se precipitava em direção ao portão, atrás do doceiro.
O homem conhecia bem o seu ofício: chegava no horário certo, estacionava o carrinho no lugar de sempre e aguardava a pequena multidão de estudantes — fardas amarrotadas, moedas apertadas nas mãos e olhos fixos na tampa do recipiente onde estavam guardadas aquelas pequenas felicidades congeladas.
Entre as marcas que ficaram na memória daquela geração estavam MilkMoni, SkiMoni e Primor.
Então vieram os anos 1970. E, com eles, uma pequena revolução gelada chamada Gelatti.
Inaugurada em janeiro de 1971, a fábrica introduziu em Fortaleza uma produção mais moderna e industrializada. Os carrinhos ganharam aparência padronizada; os vendedores passaram a circular uniformizados, de boné, transmitindo uma imagem de organização e modernidade até então pouco comum naquele mercado.
E os sabores conquistaram rapidamente o paladar da cidade. Creme, baunilha e coco tornaram-se verdadeiros clássicos. O Gelatti alcançou tamanha popularidade que, em determinados círculos, pedir um picolé era quase o mesmo que pedir um Gelatti.
A marca chegou também à televisão. A cantora cearense Ayla Maria tornou-se garota-propaganda da empresa e emprestou a voz a um jingle que permaneceu na memória de muita gente.
Mas os picolés não reinavam sozinhos no imaginário dos fortalezenses. Havia uma tentação de outra natureza: a Moreninha.
Diferente dos picolés tradicionais, ela vinha em forma de uma grande bola de sorvete, quase do tamanho de uma maçã, envolvida por uma tênue cobertura crocante de chocolate. Os sabores de coco queimado, nata e flocos são especialmente lembrados.
A primeira mordida era um espetáculo à parte. Primeiro vinha o estalo da cobertura de chocolate se quebrando. Depois, o sorvete denso e cremoso, escondido sob aquela casquinha crocante.
Era uma sobremesa que parecia ter sido inventada pelos deuses para fazer a criança esquecer, por alguns minutos, que existia qualquer outra coisa no mundo.
Na Fortaleza daqueles anos — a Praia de Iracema ainda boêmia, a Beira-Mar sem o aterro e a muralha de espigões, os clubes sociais cheios aos domingos, os cinemas de rua do Centro — um picolé custava poucos cruzeiros, mas valia uma fortuna sentimental.

O sininho do carrinho anunciava muito mais que um doce gelado. Anunciava uma pausa na tarde, o encontro da meninada na calçada, o recreio, o passeio depois da praia, a moeda guardada no bolso e aquele breve instante em que o verão parecia não ter fim.
Muitos anos depois, já trabalhando em uma grande indústria têxtil de Maracanaú, ouvi certa vez um diretor repreender um gerente que parecia excessivamente preocupado em agradar a todos.
A bronca veio em forma de uma frase que se tornou quase um bordão entre nós:
— Quer agradar todo mundo? Então vá vender picolé!
Ninguém precisava de maiores explicações. A lógica tinha clareza solar: poucas coisas conseguem produzir uma unanimidade tão imediata quanto uma delícia gelada em uma tarde de sol.
Tem como alguém ficar triste diante de um picolé?
Os tempos mudaram.
Vieram os igualmente deliciosos Pardais, Frozens, Maguarys, Kibons, Selectos e tantas outras novidades. Os freezers ficaram mais sofisticados, os sabores se multiplicaram, os processos de fabricação se modernizaram e as embalagens ganharam cores e desenhos capazes de disputar a atenção até dos adultos.
Mas há coisas que a modernidade não consegue substituir.
Porque, para quem viveu a Fortaleza dos anos 1960 e 1970, basta ouvir — ainda que apenas na memória — o trim-trim de um pequeno sino para voltar imediatamente àquela cidade de calçamentos, tardes compridas e férias que pareciam não terminar nunca.
E talvez seja esse o verdadeiro sabor da saudade: um picolé de cajá escorrendo pelas mãos, um “bigode magenta” denunciando o morango, uma bola de Moreninha desaparecendo atrás de uma cobertura de chocolate e, ao longe, o sino do doceiro anunciando que a felicidade estava chegando.
Tempos idos. Tempos que não voltam jamais.
E você? Qual desses sabores ainda consegue trazer de volta, num instante, a Fortaleza da sua infância?








