
Por Rômulo Alexandre Soares[1] e Alm. Elis T. Öberg[2]
Em ano eleitoral, é natural que o debate público se concentre em problemas urgentes e respostas de curto prazo. Mas uma provocação recente, feita em encontro empresarial e com boa repercussão na mídia, trouxe ambição ao debate: desde 2017, a participação do Ceará no PIB nacional deixou de avançar. Depois de chegar a 2,25% naquele ano, voltou a rondar a casa dos 2%. O dado é incômodo porque revela uma estagnação relativa. O Ceará trabalha, investe e atrai projetos importantes, mas ainda não conseguiu dar o salto necessário para ocupar uma posição mais expressiva na economia brasileira.
Esse diagnóstico fica ainda mais claro quando se observa a concentração da atividade econômica. Fortaleza responde por 37,4% do PIB estadual. Maracanaú, segundo maior PIB municipal, representa 5,8%. Caucaia participa com 4,3% e São Gonçalo do Amarante com 3%, impulsionados, em parte, pela dinâmica do Complexo Industrial e Portuário do Pecém. Esses números mostram que a economia cearense possui polos relevantes, mas ainda precisa ampliar sua base produtiva, diversificar cadeias e gerar mais valor agregado em diferentes territórios.
Por isso, discutir o próximo ciclo econômico do Ceará não é um exercício abstrato, nem tema para depois da eleição. É uma necessidade concreta que deveria estar no centro da agenda pública. Se a participação do Estado na economia nacional permanece praticamente estacionada há quase uma década, a pergunta central é: quais novas frentes podem criar escala, atrair investimentos, formar trabalhadores qualificados, gerar tecnologia e reter mais valor no território cearense? O problema, portanto, não é apenas crescer. É crescer de um modo capaz de mudar a posição relativa do Ceará na economia brasileira.
Durante décadas, o litoral cearense foi visto principalmente como espaço para pesca, turismo, navegação e atividade portuária. Essas atividades continuam fundamentais. No entanto, as transformações que estão ocorrendo no setor energético global indicam que o mar pode assumir um papel muito mais amplo: tornar-se uma plataforma de geração de energia, produção industrial, logística avançada, inovação tecnológica e prestação de serviços especializados.
A questão estratégica não é apenas quanta energia será produzida no mar, mas, também, quem fornecerá os equipamentos, os navios, as estruturas, a engenharia, a manutenção e os serviços necessários para sustentar essa nova economia marítima. É nessa resposta que está parte relevante do impacto potencial sobre a economia cearense.
Recentemente, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), no âmbito do Plano Nacional de Energia 2055, divulgou o Caderno de Potencial dos Recursos Energéticos. O documento traz uma coleção de mapas que, quando analisados em conjunto, revela uma concentração rara de oportunidades energéticas justamente no Ceará e em seu entorno.

De um lado, aparecem áreas favoráveis para a geração eólica offshore. De outro, observa-se elevada disponibilidade de energia solar, significativo potencial eólico em terra e perspectivas geológicas relacionadas às bacias sedimentares da margem equatorial brasileira no mar do Ceará. Cada um desses recursos possui dinâmicas próprias, desafios específicos e diferentes graus de maturidade tecnológica e econômica. Porém, quando observados em conjunto, apontam para algo mais relevante do que qualquer projeto isolado: a formação de uma nova economia associada ao mar.
É importante destacar que potencial não é sinônimo de investimento garantido. Nem toda área tecnicamente favorável se transformará em empreendimento. Existem desafios regulatórios, ambientais, tecnológicos e financeiros que ainda precisarão ser enfrentados. Mas os sinais são suficientemente consistentes para justificar uma reflexão estratégica sobre o papel que o Ceará poderá desempenhar nesse processo.
A experiência internacional demonstra que os maiores benefícios econômicos associados ao uso dos recursos oceânicos frequentemente não decorrem apenas da produção de energia ou da exploração de recursos naturais. O verdadeiro valor está na capacidade de desenvolver conhecimento, serviços, infraestrutura, tecnologia e competências industriais capazes de atender uma cadeia econômica muito mais ampla. É aí que a economia do mar deixa de ser apenas uma pauta energética e passa a dialogar diretamente com a formação de riqueza no Ceará.
Um parque eólico offshore, por exemplo, mobiliza uma rede complexa de atividades. São necessários estudos oceanográficos, levantamentos ambientais, projetos de engenharia, estruturas metálicas, cabos submarinos, embarcações especializadas, operações portuárias, sistemas digitais de monitoramento, manutenção permanente e, futuramente, processos de descomissionamento. A exploração de petróleo e gás no ambiente marítimo também exige uma extensa estrutura de apoio logístico, tecnológico e operacional.
Embora essas atividades utilizem tecnologias distintas, compartilham uma base comum de competências ligadas ao ambiente marítimo. Portos, estaleiros, empresas de engenharia, serviços especializados, centros de pesquisa, formação profissional e infraestrutura logística tornam-se ativos estratégicos para diversas cadeias produtivas simultaneamente.
É justamente nessa convergência que surge uma oportunidade para o Ceará. Tão importante quanto discutir projetos específicos, é pensar na construção de capacidades permanentes. Contabilizar megawatts é tão necessário quanto avaliar o percentual do valor econômico que permanecerá no território. É importante produzir energia no mar. Mas também é relevante desenvolver competência para participar da economia do mar. Essa escolha será decisiva se quisermos reposicionar o Ceará na economia brasileira.
O Estado atravessa um momento especial, em que empreendimentos aparentemente independentes possuem uma inter-relação que, se bem acompanhada, levará ao surgimento de diversas oportunidades concretas.
A constatação de petróleo no poço de Morpho, a 500 km da foz do Rio Amazonas, conforme anunciada na semana passada, agregada ao leilão de oito áreas para a exploração petrolífera, em frente ao litoral do Ceará, já no dia 7 de outubro, é uma delas.
Outra, é o interesse de diversos investidores em instalação de campos de eólicas offshore nas costas cearenses, possivelmente para apoiar a produção de hidrogênio verde, que se interrelaciona diretamente com a obtenção dos novos combustíveis marítimos, ou para energizar os diversos datacenter que ora buscam se instalar na região de Fortaleza, visando minimizar a distância entre os cabos submarinos e, portanto, otimizando a sua operação.
A essas duas já importantes atividades, agregue-se a entrada em operação do ramal do Porto do Pecém, da ferrovia Transnordestina, conectando à próspera região do MaToPiBa, o que possibilitará a implantação de diversos “portos secos” no seu entorno e trará uma transformação significativa na hinterlândia associada ao Complexo Industrial do Pecém.
O Ceará reúne condições particularmente favoráveis para essas atividades. Possui experiência consolidada na geração eólica “on shore”, localização geográfica estratégica (a aterragem dos cabos submarinos em Fortaleza, confirma isso.), infraestrutura industrial e portuária relevante, universidades e centros de pesquisa qualificados, além de uma tradição de inserção internacional construída ao longo das últimas décadas.
Além disso, sua posição geográfica oferece uma vantagem frequentemente subestimada. O Estado está localizado em uma região de conexão entre a América do Sul, a Europa, a costa ocidental africana, além de ser passagem obrigatória para todo o tráfego que vindo dos Cabos (Boa Esperança e Horn) se destina ao Caribe e América do Norte. Em um cenário de crescimento das atividades marítimas relacionadas à transição energética, essa localização pode ampliar seu papel como plataforma logística e base de serviços de alcance regional e internacional.
Todavia, a transformação do momento de convergência de empreendimentos, em oportunidades reais a serem aproveitadas e que venham a resultar em uma significativa melhoria econômica para o Estado, irá requerer diálogo e cooperação entre empresários, academia, esferas governamentais e diversos setores da sociedade civil organizada que participam do ecossistema em pauta.
Talvez, o desafio decorrente do requisito acima citado, não passe apenas por construir um cluster naval tradicional, mas estruturar um verdadeiro Cluster Naval e de Energias Offshore, agregando sob o mesmo teto todos os atores necessários a gerar o diálogo que possibilite construir um ambiente capaz de integrar infraestrutura portuária, construção e adaptação de embarcações, fabricação de componentes, serviços especializados, inovação tecnológica e formação de profissionais voltados às atividades marítimas do futuro.
Naturalmente, não se trata de reproduzir integralmente todas as etapas de cada cadeia produtiva. Nenhuma economia moderna funciona dessa forma. O desafio consiste em identificar os segmentos em que o Ceará pode ser mais competitivo e construir vantagens concretas a partir deles. Em alguns casos, o protagonismo poderá residir na logística. Em outros, na engenharia, na formação profissional, na pesquisa aplicada ou na prestação de serviços de alta especialização.
Essa visão também precisa ser regional. As futuras demandas associadas ao ambiente offshore não se limitarão às águas cearenses. Projetos localizados no Rio Grande do Norte, Piauí, Maranhão, Pará e em outras áreas da margem equatorial poderão demandar infraestrutura, serviços e suporte operacional. A escala econômica dessa nova fronteira dependerá justamente da capacidade de integrar o Ceará a um ecossistema marítimo-econômico regional mais amplo.
Os próximos quatro anos oferecem uma janela importante para iniciar esse processo. Não seria realista imaginar que um cluster marítimo dessa magnitude esteja plenamente consolidado ao final de um único mandato. Mas é perfeitamente possível construir seus alicerces por meio do planejamento, da qualificação profissional, do fortalecimento da infraestrutura, da atração de investimentos, do estímulo à inovação e da articulação institucional.
Tudo isso deve ocorrer de forma compatível com os princípios da sustentabilidade. O desenvolvimento da economia do mar exige planejamento espacial marinho, avaliação dos impactos ambientais, proteção da biodiversidade e diálogo permanente com pescadores, comunidades costeiras, setor turístico e demais usuários do espaço marítimo. Conservação ambiental e desenvolvimento econômico não são objetivos opostos. Ao contrário. A previsibilidade ambiental é um dos principais fatores para a atração de investimentos sustentáveis de longo prazo.
Releva notar que já existem Clusters Tecnológicos Navais aqui no nordeste brasileiro, na Bahia e no Rio Grande do Norte, bem como movimento para a criação de outro em Alagoas.
O Ceará já demonstrou capacidade de liderar transformações importantes. Agora surge uma nova pergunta estratégica. Quando os grandes investimentos associados à economia offshore avançarem no Norte e Nordeste, o Ceará ocupará qual posição? A de comprador de equipamentos, importador de tecnologia e consumidor de serviços produzidos em outros lugares? Ou ocupará a posição de fornecedor regional de conhecimento, infraestrutura, inovação industrial e soluções para a economia do mar?
O próximo ciclo econômico do Ceará pode estar no mar. Mas transformar potencial em prosperidade dependerá de visão estratégica, coordenação institucional e da capacidade de construir, desde já, as competências que essa nova economia exigirá. A resposta não será determinada pelos ventos, pela incidência solar ou pela geologia. Esses ativos já existem. Ela será determinada pelas escolhas que fizermos agora.

[1] Rômulo Alexandre Soares é advogado, Mestre em negócios internacionais e especialista em Direito do Mar e Direito Internacional e presidente da Câmara Setorial de Economia Azul da Adece.

[2] Elis T. Öberg é Almirante de Esquadra da reserva, Doutor em Ciências Navais, ex-Comandante de Operações Navais, Ex-Presidente da Junta Interamericana de Defesa e Membro da Câmara Setorial de Economia Azul da Adece.







