A democracia é feita de povo, Nação e liberdade; Por Paulo Elpídio

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“Ce qui distingue les nations ce n’est ni la race, ni la langue. Les hommes sentent dans le coeur qu’ ils sont un même peuple lorsqu’ils ont une communauté d’ idées, d’ intérêts, d’ affections, de souvenirs et d’ espérances”, Foustel de Coulanges, citado in “Les Liturgies Politiques”, de Claude Rivière, PUF, Paris, 1988.

Não que ao presidente caiba, em meio às suas graves tribulações, considerar o baixo nivel do Congresso nesta deplorável legislatura. Nem que o silêncio dos parlamentares, em resposta aos insultos recebidos, possa ser percebido como um gesto de resiliência, premidos pelos proprios interesses.

Descemos, como nação e povo, nestes dois últimos dias, aos escorregões, na escala de uma combalida democracia. Dá para perceber a fragilidade das nossas lealdades democráticas ao vermos a desconstrução progressiva da ideia republicana na midia, no governo, na politica e, até mesmo, na família.

Não parece ser um fenômeno mundial, como tentam justificar as generalizações apressadas da mídia e alguns sociólogicos orgânicos. O mundo está girando e mudando, isso é certo; é da indole dos humanos e da provisoriedade das suas pretensões — mudar.

O Brasil, como se nota, tão evidente nos parece, gira mais rápido, movido pela força imponderável da indigência de ideias e do oportunismo que comanda a politica e produz ideologias de consumo imediato.

A politica, no sentido prosaico das relações mínimas de poder, de interesses e influência, identifica-se em países de reduzida experiência democrática, como o Brasil, com o microcosmo das lealdades “compartilhadas”, segundo a visão sempre atual de Max Weber.

Favores em troca de obediência, a autoridade que se impôe em uma relação de proteção e submissão, tiram o lastro de equilíbrio entre a concepção e os conceitos originários da política e do “político” (o conteúdo da atividade política, não do agente que a exerce, dustinção sutil, a que aludia Julien Freund, “L’ Essence du Politique”, Sirey, Paris, 1965.)

A fome, o crescimento geométrico da ação social do Estado, a gerar um mercado de emprego sem trabalho; a corrupção, a persistência dos bolsões controlados pelas oligarquias, o assédio dos chamados “movimentos sociais” e a elevada “capitalização” da caixa sindical, em tenebrosas manobras financeiras com a fazenda do Estado, desenham um cenário desconcertante de um misto de tragédia e ópera bufa. Lembram um teatro mambembe com velhos atores empenhados em fazer o povo rir dos seus próprios desconsolos.

A tudo isso, acresce o estado de ignorância e dependência eleitoral e de favores a que o povo foi abandonado e a esses vícios acostumado.

Socialistas e capitalistas, liberais e progressistas, populistas, comunistas e fascistas, e as pessoas aparentemente normais; e mais, democratas com matricula vencida, são devotos de um Estado centralizador, onisciente e onipresente.

A questão social é para essa gente um programa social permanente, tipo “bolsa familia”, gás, luz e transporte gratuito. Não impõe ações construtivas para a criação de um mercado de trabalho capaz de gerar oportunidades de realização pessoal e profissional. Os
“Programas sociais” de governo não libertam as criaturas mais vulneráveis. Antes, as aprisionam a uma hierarquia de favores e dependências para negar-lhes a chance de, dispondo de oportunidades compensatórias, possam construir o seu futuro e a sua vida.

A tudo isso assistimos, debaixo de uma zoeira patriótica que aos pobres de espírito e aos dominados pela esperteza encanta e seduz. E nós, nos calamos obedientes, assustados e temerosos, como se pudéssemos nos esconder dos olhos do Leviatã…

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

 

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