Almoço para um barão. Por Angela Barros Leal

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Por Angela Barros Leal
Articulista do Focus

Sentado a meu lado na mesa de almoço, em meio a conversa corriqueira, um integrante colateral da família notícia, com estudada tranquilidade: “Amanhã vou oferecer um almoço ao Barão.” 

Engulo em seco, mastigando a informação. São 13h de mais uma tarde ensolarada dos nossos quase trópicos, em um país que há um século deixou de contar com uma Corte Imperial. Almoço para um Barão. Não sei o que dizer. De Barões, não vou além do primeiro verso da obra Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões (“As armas e os barões assinalados”…); de um escasso conhecimento sobre o nosso Barão de Studart, com sua honraria provinda da Santa Sé; de quase nada sobre os barões de Ibiapaba e de Aracati. 

Há outras pessoas na mesa um pouco mais familiarizadas com o Barão assinalado, e que brincam com meu vizinho a respeito da amizade exposta sobre a mesa. Mastigo devagar, imaginando como deve ser a sofisticação do cardápio destinado ao paladar de um Barão: finas lascas de salmão; língua de beija-flor; carne tenra de vitela; cogumelos recém-colhidos. 

Quando na vida eu esperaria que aquele cidadão cearense, de classe média, nascido e criado nessa nossa ex-colônia lusitana, fosse familiarizado com alguém que ostenta um título de nobreza. 

Talvez, em viagens internacionais, pudesse ele ter roçado cotovelos com incógnitos barões e baronesas, condes e viscondes, quem sabe trocado breves palavras com algum auto identificado marquês, admirado o grau de elegância dos títulos nobiliárquicos, surgindo daí uma amizade capaz de ensejar almoços fraternos, ou de justificar formais recepções, como as que devem ser devidas a nobres comensais.

Entre uma brincadeira e outra, vou ouvindo informações sobre o Barão a ser recebido para um almoço. Não, o título não veio a ele pela via sanguínea, uma primogenitura herdada do tronco familiar a correr por suas veias. De igual maneira, não veio por haver casado com alguma ilustre Baronesa, que o alçasse ao status da nobreza.

O baronato viera de maneira bem mais capitalista, com a aquisição do título nobiliárquico on-line, emitido pela micronação de Sealand, Principado estabelecido na década de 1960 sobre uma Base Militar defensiva da Segunda Grande Guerra, no Mar do Norte, a cerca de 11 quilômetros da costa Leste da Inglaterra. Ponto estrategicamente escolhido pelos ocupantes, por estar fora dos limites das águas territoriais inglesas. 

Apesar de não contar com o reconhecimento oficial de nenhuma nação sobre a Terra, o Principado de Sealand existe, suspenso em colunas de concreto e aço, 30 m acima do nível do mar, sendo avistado à distância como uma gigantesca letra π. É desprovido de chão e de fronteiras, no sentido tradicional. Possui, entretanto, seu hino, sua divisa (E Mare Libertas, ou Do Mar, Liberdade), sua moeda, sua bandeira, sua Constituição, seu brasão de armas, e sua população permanente, composta por um solitário habitante.

A economia do Principado é aquecida pela comercialização de selos, camisetas, bonés, chaveiros, capas de chuva – e de títulos de nobreza, como o que conseguiu adquirir o convidado do meu vizinho de mesa. 

Ao que vejo, na pesquisa que me apresso a fazer discretamente na internet, uma cópia da Constituição de Sealand pode ser comprada por £ 5,71. No câmbio de hoje, R$ 42,00. O título de Duque ou Duquesa demanda investimento de £ 570, (cerca de R$ 4.200,00), bem mais caro do que o de Conde ou Condessa (£ 228, ou R$ 1.680,00), e do que o referido baronato, o de menor custo, por volta de módicas £ 45, ou seja, R$ 332,00.

Aproveito para aprender que a hierarquia nobiliárquica é assemelhada à hierarquia militar e à da Igreja, com uma vital diferença: não há progressão natural, como no Exército (de Capitão a Major, daí a Tenente-Coronel, Coronel e assim por diante), nem como na Igreja, de Padre a Bispo, Arcebispo, Cardeal, quem sabe um dia chegando a Papa.

O fidalgo nasce, cresce e morre no mesmo degrau de seu berço. Não evolui de Barão a Visconde, nem de Visconde a Conde, muito menos de Marquês a Duque. Cada qual permanece em seu nobre quadrado. Em tais condições, deleto da minha mente o cardápio de iguarias exóticas, e imagino que o almoço a ser oferecido ao Barão de Sealand pelo integrante colateral da família não precise ir além do plebeu feijão-com-arroz que saboreamos agora. 

 

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder.

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