Eleições Fortaleza: O que não tem remédio, remediado está! Por Aline Lima

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A polarização política não é um fenômeno novo, mas, nas últimas décadas, tem se intensificado, especialmente nas disputas eleitorais. Polarização, em seu sentido semiótico, refere-se à criação de dois polos opostos que se definem pela diferença e pela rejeição mútua. Na política, isso significa que os grupos de apoio a candidatos adversários se distanciam cada vez mais, tanto ideológica quanto emocionalmente. Não há mais um “meio-termo”; os debates deixam de focar nas nuances das propostas ou políticas públicas. Em vez disso, a retórica frequentemente transforma o oponente em um inimigo a ser combatido.

A polarização entre dois candidatos faz com que eleitores de ambos os lados se posicionem de maneira quase irreconciliável, impactando diretamente a forma como esses grupos percebem a realidade.

Existem dois tipos de preconceitos que a polarização favorece: Preconceito de Amor e Preconceito de Ódio.

O “preconceito de amor” descreve a inclinação emocional de alguns eleitores em idealizar um candidato, cegando-se para suas falhas. Eleitores que caem nesse tipo de preconceito deixam de avaliar criticamente as propostas e a capacidade do candidato, confiando apenas em sua conexão emocional. Esse “amor” impede que os eleitores questionem profundamente os planos e promessas, resultando em um apoio emocional, em vez de racional.

Por outro lado, o “preconceito de ódio” é o oposto do preconceito de amor. Ele ocorre quando eleitores rejeitam irracionalmente um candidato, demonizando-o e alimentando uma visão completamente negativa, sem considerar suas propostas ou qualidades. Essa rejeição é baseada em emoções como raiva, medo ou desprezo, tornando-se tão intensa que qualquer discurso racional perde espaço. O preconceito de ódio fecha portas para um debate construtivo. Eleitores deixam de ouvir o “outro lado” e transformam o campo político em uma batalha de ataques, em vez de um espaço para discussões produtivas.

Com eleitores tão emocionalmente envolvidos, seja pelo preconceito de amor ou de ódio, argumentar com base em propostas realistas torna-se um grande desafio. As campanhas eleitorais acabam focando na exploração dessas emoções, com discursos inflamados que visam mobilizar a base de eleitores pelo medo ou pela esperança, em vez de discutir soluções concretas para os problemas da cidade.

Esses dois grupos se fecham em suas bolhas, alimentados por uma polarização emocional que impede a abertura para o diálogo. A racionalidade é substituída por respostas emocionais, e o debate político se transforma em uma guerra de identidades, em que o foco nas soluções reais para os problemas da cidade — como saúde, educação, segurança e infraestrutura — fica em segundo plano.

Mas um deles será eleito, e agora?

O eleito enfrentará uma série de desafios significativos, muitos dos quais estarão enraizados na polarização exacerbada e nos preconceitos de amor e ódio que dominaram o cenário eleitoral. Esses desafios vão além da governança cotidiana e incluem questões políticas, sociais e de legitimidade.

A intensa divisão emocional criada durante a campanha não desaparecerá com o fim das eleições. Se, por um lado, haverá um grupo fiel de apoiadores que verá o eleito como um “salvador” ou alguém que traz esperança, por outro, haverá uma grande parcela da população que o enxergará com hostilidade ou desconfiança, independentemente de quem vença.

O eleito precisará restaurar a confiança e o diálogo entre os grupos polarizados. A campanha eleitoral terá deixado feridas, e será fundamental criar uma ponte entre os diferentes lados do espectro político, envolvendo tanto aliados quanto opositores na construção de políticas públicas inclusivas. Expectativas exageradas foram criadas em ambos os lados, forçando o eleito a lidar tanto com aqueles que têm expectativas irrealistas quanto com aqueles predispostos a rejeitá-lo desde o início.

A governança de uma cidade polarizada exigirá esforços concretos para unir a população, criando um ambiente de inclusão social e política. O prefeito eleito precisará trabalhar para garantir que sua gestão seja percebida como representativa de toda a cidade, e não apenas de um grupo específico de eleitores.

O cenário político que o eleito enfrentará será marcado por intensa polarização, expectativas infladas e desafios institucionais. A capacidade de promover diálogo, gerenciar expectativas e implementar propostas realistas será essencial para o sucesso da nova gestão. O futuro de Fortaleza dependerá da habilidade do eleito em unir a cidade e governar de maneira inclusiva e eficiente.

Aline Lima é psicóloga, pós-graduada em Psicopedagogia e Psicopatologia, com formação em coaching executivo. Especialista em Gestão de Negócios e Programa CEO e Programa COO pela FGV. É CEO (Libercard), liderando desenvolvimento de produtos, equipes e relações institucionais.

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