
O processo de definição da chapa governista na campanha eleitoral do Ceará foi, desde o início das articulações, tumultuado por incertezas. Resumo assim o que todos sabem: havia mais comensais do que cadeiras à mesa e a ocupação da própria cabeceira não estava assegurada ao seu pretendente natural.
Por outro lado, o opositor postado, Ciro Gomes, dispunha de três trunfos que o diferenciava daqueles que antes tentaram ameaçar o predomínio da aliança de centro esquerda: a oposição desta feita estaria unida, o candidato teria tempo de propaganda igual na televisão e ele mesmo é um personagem amplamente conhecido e com perfil avaliado positivamente por grande parcela da população.
Decorre de tudo isso que o tucano, de volta ao ninho que ajudou a tecer, entrou na raia com possibilidades reais de disputa e atraindo atenção maior do que qualquer outro seria capaz de obter tão rapidamente e, de fato, até aqui lidera as pesquisas de opinião em seu resultado agregado – um êxito que, curiosamente, não comemora. É o que será discutido neste artigo.
Seria de se estranhar, se não fosse compreensível em sua razão de fundo, a recusa inarredável de Ciro Gomes em comentar os resultados de pesquisas eleitorais que vinham garantindo a ele vantagens quilométricas sobre seu adversário, o governador Elmano de Freitas – uma aparente manifestação de modéstia alheia à elevada auto estima do candidato tucano.
Ciro tem evitado comentar os números das pesquisas que lhe são muito favoráveis porque está bem orientado e surpreendentemente disciplinado nessa nova fase de sua vida – emocionalmente mais contigo e com uma pendor conservador que remete às suas origens políticas, sob a mentoria de seu pai, nos anos crepusculares do regime militar.
O candidato sabe que alcançou cedo demais seu teto. Isto é, iniciou a campanha propriamente dita no patamar máximo de suas possibilidades eleitorais, considerando os diversos fatores da conjuntura política. Em resumo: as pesquisas poderão lhe trazer boas notícias, mas não notícias melhores. Significa que a sequência dos próximos gráficos indicará para ele um esforço resiliente de “gestão de queda”.
A partir de agora, as pesquisas deverão alimentar, pouco ou muito, maiores esperanças no bloco de seu adversário, Elmano de Freitas, beneficiado por uma bem maior capacidade de penetração direta nos territórios a partir de uma base ampla de apoio nos municípios vindos de prefeitos, em média, muito bem avaliados. Além disso, o interesse crescente da população pelo processo eleitoral dará a um eleitorado majoritariamente lulista a oportunidade de saber a quem o presidente apoia no Ceará. Isso conta. Pouco ou muito? Veremos.
É por isso que Ciro Gomes tem evitado usar os resultados de pesquisas até aqui como emulação para sua campanha: porque sabe que a safra agora vai frutificar mais no quintal do vizinho e se abrirá para ele o desafio de confirmar ou não a consistência substantiva da tendência verificada até agora, de uma maioria expressiva na preferência do eleitor – ponto de inflexão já detectado anteriormente apenas por um instituto de pesquisa, Atlas/Intel, com sua metodologia de maior profundidade focal.
Sintomaticamente, Ciro disse e repetiu aos microfones que “os próximos dez dias serão decisivos”. Foi lúcido. De fato, se conseguir nesse curto e decisivo período se manter em boa vantagem (fora das
margens de erro), pode gerar a consolidação de um sentimento de novidade e mudança capaz de provocar danos na rede de apoios de seu adversário.
No entanto, Ciro parece consciente de que, ao cair abaixo dessa linha, dificilmente teria meios de recuperação diante de um adversário que detém os fatores substantivos da disputa: boa avaliação de governo, apoio de Lula, imagem pessoal preservada, uma aliança ampla e um cinturão de prefeituras grandes a seu favor. Não é fácil para Ciro. Não seria, é verdade, fácil para ninguém.
Em paralelo às sondagens quantitativas periódicas dos institutos, os comitês de campanha realizam pesquisas diárias de “trekking”, em que um número de consultas mais reduzido é compensado pela verificação diária e fornece medidas do pulso imediato do curso de campanha – o que costumo chamar de “o bafo das ruas”. E essas sondagens revelam que, sim, Ciro tem razão: agora o bicho vai pegar. As manifestações inicialmente favoráveis a ele serão doravante testadas em sua capacidade de consolidação.
Para finalizar, uma observação à margem da pauta.
Há um recado direto da população, expresso no desempenho de Ciro e que já esteve suficientemente claro na recente sucessão em Fortaleza, em 2024: se vencer, o projeto político hoje sob comando de Elmano de Freitas precisa “passar a marcha”, como alguém já houvera dito quando tudo isso começou. É o Futuro, gente. Falaremos sobre isso em outra oportunidade.








