Tratava-se de um sino, um sino parecido com todos os sinos da história da humanidade, desde que os chineses inventaram este instrumento destinado à comunicação sonora, uns 3 mil anos atrás. Um sino como todos os sinos, com seu corpo levemente curvilíneo, sobre o qual se destacavam alguns indecifráveis desenhos em relevo. Um sino completo, funcional, que não dispensava o badalo do qual pendia uma corrente delicada.
Era um sino preso com firmeza à parede com a ajuda de um suporte do mesmo metal – provavelmente bronze –formando um conjunto com a placa identificadora da rua, logo abaixo dele, superposta por sua vez a uma outra placa, essa oculta por inteiro. Ao lado direito, algo semelhante a um minúsculo oratório – contendo talvez apenas uma lâmpada discreta, protegida por um vidro, ali disposta para alumiar o sino.
Era isso que eu via com a mão no queixo, o cotovelo apoiado no joelho, sentada em um banco de cimento no miolo da cidade, aguardando a hora da visita agendada ao Excelsior Hotel.
Minha primeira dúvida se voltou à sobrevivência do sino: como um belo objeto feito em bronze, metal com valor de mercado, de tamanho razoável, situado em local tão público como é a esquina das ruas Guilherme Rocha e Major Facundo –, como conseguira permanecer intacto ao longo do tempo.
Não havia sido colocado ontem ou anteontem, eu suspeitava, porém ali estava ele, entronizado à altura das marquises das lojas, a uma distância segura do chão, espantosamente desprovido de qualquer sinal de dano causado pela passagem dos humanos. Estava de fato a uma boa altura, mas nada que uma boa escada, ou um homem com os pés sobre os ombros de outro homem não conseguisse alcançar.
Por estar o sino na parte térrea do Excelsior Hotel, na sequência de lojas projetadas para o comércio desde a inauguração do grandioso prédio, em 1931, julguei que se tratasse de um indispensável acessório para convocar o porteiro, a horas mortas da noite, a abrir o portão de ferro aos hóspedes.
Poderia também ter funcionado como uma campainha, imaginei, um acessório destinado a chamar aos carros de praça que rondavam o local naquela década, seu repique um aviso aos motoristas dos veículos de aluguel de que ali aguardava um cliente.
Ou quem sabe poderia ter sido instalado para acionar medidas mais emergenciais, em caso de incêndio, por exemplo, despertando os hóspedes dos sete andares do Excelsior, alertando a vizinhança sobre os riscos do fogo, avisando ao Corpo de Bombeiros sobre a necessidade de se fazer presente o mais rápido possível.
Sentada no banco de cimento, o sol do começo da tarde filtrado pelas peças de roupas à venda nas barracas instaladas em fila, no meio da rua, a luminosidade ressaltando as cores das roupas chinesas dançantes, sujeitas ao sopro do vento, naquela confluência de vias que um dia foi chamada de “esquina do pecado” (justamente pelos volteios caprichosos do referido vento), me mantive à espera do meu guia.
Quem eu aguardava conhecia tudo sobre o centro da cidade. E quando me ouviu deu pouco caso à minha dúvida: não era nada do que eu havia pensado. O sino não integrava o hotel. Tinha sido colocado ali por algum lojista, por motivos promocionais. Nada de valor histórico.
Uma pena, pensei com os meus zíperes e botões, descendo das nuvens da imaginação. Tratava-se então de um mero sino, um signo recente, um sinal de imposição da realidade. Mas entender como nenhum vândalo havia tentado se aproveitar do sossego noturno para arrancá-lo dali, como o elegante sino conseguira manter-se intocado e intocável em lugar tão visível – esse continuou sendo para mim o verdadeiro mistério.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







