
Ser o penúltimo de uma família numerosa, como era o meu caso, tinha suas desvantagens. Os recados e mandados quase sempre sobravam para mim. Era um horror. E havia um destino certo para boa parte deles: a bodega da esquina. Talvez seja por isso que eu guarde tantas lembranças desses pequenos estabelecimentos que fizeram parte da paisagem de Fortaleza e da infância de tanta gente da minha geração.
Nos anos 1960, os supermercados ainda não eram tão abundantes nem tão sortidos como hoje. As compras maiores eram feitas no atacado, na Cobal ou na Rua Governador Sampaio. Para os pequenos quebra-galhos do cotidiano, porém, existia a bodega. Precisava de sabão, fósforo, pão ou qualquer outra coisa esquecida na lista? A bodega era a solução.
Elas faziam parte da rotina. Estavam ali, quase sempre na esquina, próximas de casa e prontas para resolver as pequenas emergências domésticas. Falar delas hoje é quase como abrir uma porta para um tempo que desapareceu.
Perto da minha casa havia quatro bodegas, estrategicamente posicionadas nas esquinas. Eu conhecia o “catálogo” de todas elas. Dependendo do pedido, já sabia exatamente para onde deveria ir. Essa expertise havia sido adquirida depois de inúmeras incursões e mandados.
Mas havia algo que todas tinham em comum: o caderno do fiado. Sem ele, praticamente não havia negócio. O freguês levava a mercadoria, e o bodegueiro anotava a dívida no velho caderno espiral. Era uma relação baseada em confiança e proximidade — e, em muitos casos, também em uma boa dose de paciência.
O balcão era uma espécie de central de informações do bairro. Ali se ficava sabendo quem casou, quem se separou, quem nasceu, quem morreu, quem estava desempregado, quem havia sido preso, quem fora traído e, naturalmente, quem comprava fiado e não pagava.
No meio das conversas ainda circulavam receitas de bolo, remédios caseiros e conselhos para os problemas da vida. Entrar numa bodega era encontrar uma espécie de universo em miniatura.
As prateleiras exibiam uma mistura aparentemente desordenada de produtos: enlatados, bebidas, sabões, detergentes, artigos de higiene e toda sorte de mercadorias. Os cigarros ficavam nos pequenos escaninhos: BB, Eldorado, Arizona, Minister, Continental e o sempre presente Hollywood. Havia também as caixas de madeira com os charutos Suerdieck, Palhaço e Mata-Rato. Estes dois últimos, sinceramente, eram intragáveis.
Algumas bodegas aplicavam injeções e vendiam medicamentos! Numa prateleira envidraçada podiam ser encontrados Merthiolate, Pomada Minâncora, Band-Aid, Furacin, 1 Minuto, Magnésia Bisurada e Cibalena, entre outros. Nos artigos de higiene e variedades apareciam Leite de Rosas, Asseptol, Van-Ess, talco Unjoyel, grampos de cabelo, pente Flamengo, botões e até elásticos para calção.
E havia aquilo que ficava literalmente sobre nossas cabeças: pendurados em cordas, linguiças, carnes de charque, toucinhos e bacalhaus. Entre as portas, havia um tambor de cem litros que guardava querosene, vendido a “retalho”. Havia também outro tambor, aberto, cheio de espanadores, rodos, vassouras de piaçava e de “pelo”.
Nas paredes, rolos de cordas, baladeiras e cabrestos para sandálias havaianas dividiam espaço com imagens de São Jorge ou do Padre Cícero, dependendo da devoção do bodegueiro. No balcão, geralmente de marmorite ou de madeira, havia a famosa bomboniere giratória de vidro, com tampas de alumínio, recheada de guloseimas.
Havia ainda a balança de pratos, com suas massas aferidas, ou a mais moderna Filizola vermelha, de ponteiro analógico. Uma resma de papel de embrulho, uma régua metálica e um rolo de barbante completavam a paisagem. Atrás do balcão ficavam as sacas de arroz, feijão, açúcar e milho. A velha geladeira, quase sempre em estado de conservação duvidoso, permanecia por perto, trabalhando sem descanso.
Nada era sofisticado. Mas tudo tinha uma função.
Talvez o que mais tenha sobrevivido na minha memória não sejam os produtos, mas os cheiros. Até hoje consigo identificar aquela mistura inconfundível: o bacalhau salgado, a carne de charque, a gordura de porco, o querosene, o fumo de rolo e a aguardente de cana servida aos fregueses.
O fumo de rolo, enrolado como uma grossa corda, ficava sob o balcão, ao lado da lata de banha de porco. Era um conjunto de aromas impossível de reproduzir hoje. Mas bastaria senti-los novamente para que eu fosse imediatamente transportado àquelas antigas bodegas. No meio de tantos sabores fortes, havia uma verdadeira preciosidade: o “tijolinho” ou “quebra-queixo”.
Era uma cocada artesanal feita de coco ralado e calda de açúcar. O segredo estava no ponto. E, quando acertavam, o resultado era extraordinário. Até hoje lembro daquele doce se desmanchando na boca.
Uma delícia sem igual.
Mas tudo tem um fim.
Fortaleza cresceu e, com ela, vieram novos hábitos de consumo e os supermercados. O Mercantil São José, fundado em 1960, está entre os primeiros estabelecimentos desse novo modelo de comércio na cidade. Depois dele, os supermercados lentamente se multiplicaram. Ofereciam variedade, preços, conforto e a possibilidade de resolver em um único lugar aquilo que antes exigia várias incursões pelo comércio do bairro.
As pequenas vendas de esquina não conseguiram acompanhar essa transformação. Foram se perdendo, desaparecendo. E, a meu ver, a maior perda foi outra. A bodega tinha rosto. Tinha nome. Tinha dono. Seu Jacques. Seu Matheus. Seu Mundico. Seu Jonas…
Nomes que talvez nada digam às novas gerações, mas que permanecem vivos na memória de quem os conheceu. Fortaleza seguiu adiante.
Nós também.
Mas basta fechar os olhos para que, por alguns instantes, a cidade volte a caber dentro de uma pequena bodega de esquina. E talvez seja justamente por isso que algumas bodegas nunca desaparecem.
Elas apenas mudam de lugar.
Passam da esquina para a memória.
E, na memória, continuam abertas…








