O peso colaboracionista da indiferença; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

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“O fundamento da República é a autoridade do povo”, James Madison — “Artigos federalistas” — 85 ensaios publicados em jornais de Nova York, 1787/88.

Guerras e revoluções armadas, governos autocratas e excesso de leis põem a nu o caráter das pessoas e das nações.

Na história recente da humanidade, nos holocaustos, nos “progroms” e na brutalidade das intenções de conquista, a infâmia marcou as tradições supostamente civilizadas de muitos países.

Na ascenção do fascismo e do nazismo, simbiose perfeita do mal na explosão das ideologias, o bolchevismo fechou a Europa para a Razão. O pior terá sido a pusilanimidade despertada entre cidadãos de boa fé ou de funesta exaltação.

A rendição da França, diante da fraqueza de um Estado Maior de fancaria, de marechais e generais de salão, transformou-se em um espetáculo trágico de fugitivos entregues à propria sorte pelas estradas da Alsàcia-Lorena tomadas pelas tropas em debandada diante dos “panzers” de Rommel.

A Linha Maginot o maior complexo militar construido para uma guerra estacionária, perdida no passado, transformou-se em um dromedário inútil, ultrapassado, nas estradas da retirada desesperada de familias inteiras, pelos carros de assalto invasores.

A França abriu seu território a tropas alemãs de ocupação e reconheceu a autoridade militar e política do III Reich sobre seu território. Ao resto permitiu que fosse chamado, deshonrosamente, em tratado de armistício — de “França-Livre”. E legou-a a um governo fantoche controlado por um velho marechal emproado com as glórias passadas de Verdun e uma polícia capaz de tudo.

Na França Ocupada. quanto na França “Livre”, a policia, o estamento público do funcionalismo, a midia e as universidades não escaparam à repressão. A “França” da “Resistência” foi a mesma “França” “Colaboracionista”. Animaram-nas os intelectuais. artistas, jornalistas e as empresas de menor ou maior porte”. Venceria, ao fim e ao cabo de tanta guerra e tantas perdas somadas o heroísmo dos justos na restauração da França Eterna, da Liberdade e dos Direitos Humanos.

Os acertos de contas, os ajustes, as vinganças pessoais, denúncias e execuções por sicários, ocorreriam depois. É esse clima de terror e medo, de adesões e cumplicidades, denúncias e assassinados que vale a pena abordar, passado tanto tempo, de tanta injúria cometida e de solertes perjúrios patrióticos.

O arbítrio praticado como expressão de um poder totalitário, sob as leis da guerra e os rigores revolucionários, promove, a exemplo do que registra a historia, o menosprezo pela verdade, a ameaça permanente de um clima de terror, o medo, a mutilação do caráter, a indiferença em relação às necessidades éticas essenciais.

Vivemos em uma sociedade de risco. Alguns ou muitos deles, devidos à criatividade deste “bicho da terra tão pequeno”, na avaliação camoneana, foram afastados. Outros, persistem na ampliação das suas garras, graças, precisamente, à criatividade dos homens e das mulheres — à esperteza, digamos, assim, compartilhada com a condenação de viverem como terráqueos, expulsos por justa causa do Paraíso…

O exemplo da França, tomei-o por “licença histórica” a lembrar-me dos conflitos que marcam a sua história de nação, povo e país, desde Vercingetorix e Clóvis, até este Macron “déplaisant”.

Das grandes manifestações do espírito humano aos ímpetos mais sórdidos e imprescritiveis praticados em seu nome, não se hão de excluir alguns episódios tormentosos. A fogueira de Joanna D’Arc, o colonialismo ultrajante “d’Outre-Mer”, o julgamento de Deyfuss, o “colaboracionismo” ao tempo da Ocupação, o genocídio compartilhado com a apocalíptica do “lebensraum” étnico, falam com clareza destes “temps révolus”…

Que nos seja poupado de passar por circunstâncias igualmente amargas por estes tempos que se anunciam, e nos tornemos criaturas vencidas pela omissão da Verdade, pela indiferença que nos faz calar diante das circunstâncias que nos são impostas; dominados pela indulgência cúmplice do nosso silêncio.

É tempo chegado da busca de convergências, da consolidação de uma Pátria consensual em torno das divergências que nos hão de unir como povo e nação.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

 

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