Usuários temporários; Por Angela Barros Leal

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Seu Jairo deve estar entre os 80 e 120 anos. Pelo que vejo dele, no espaço apertado da saleta onde recebe os clientes para o conserto de relógios, arriscaria a hipótese de ser essa sua faixa de idade. Se bem que, observando com atenção, seu sorriso é o de alguém que ande pelos 80, ou menos que isso, devido à demonstração de simpatia traçada em arco de orelha a orelha, enquanto empurra os óculos para o apoio seguro das rugas da testa.

Os clientes são recebidos com os modos de um nobre em seu castelo. Ele vai até a ponta do balcão expositor, feito em madeira e vidro, para levantar a base móvel lateral que se ergue qual uma ponte movediça, permitindo a entrada dos que chegam em paz.

O motivo da visita é obter informações sobre a recuperação mecânica de um relógio de algibeira que pertenceu ao pai do meu avô, e que agora está nas mãos do meu filho. Como os dois netos vieram juntos, interessados em acompanhar o processo de resgate, caso o relógio seja recuperado serão eles a sexta geração a lidar com os ponteiros do tempo.

São duas as salas que ele ocupa, Seu Jairo, no primeiro andar do Edifício Triunfo, Centro da cidade. A salinha da entrada nada oferece além do balcão, agora visto pelo lado de dentro. Pelas janelas basculantes que iluminam a saleta, as lâminas horizontais em vidro fosco se abrem um quase nada, apesar da pressão que faço sobre a pequena alavanca, curiosa para ver de cima o movimento de gente e de comércio lá fora. Água gelada, água geladiiiinha! – anuncia uma voz feminina, a musicalidade ajudando a despertar a sede.

Décadas de ferrugem ou de detritos podem ter emperrado o sistema manual de abertura da janela, incapaz, entretanto, de impedir a entrada dos mil sons da esquina das ruas Liberato Barroso e Senador Pompeu. Na década de 1930, esteve instalada aqui a Padaria Triumpho, até abrir espaço, em 1960, para a inauguração do prédio. É possível que tenha sido essa a época em que Seu Jairo instalou-se no local, o que não me encorajo a perguntar, mas que posso depreender a partir da literatura preservada a um canto mais distante do balcão.

Uma pilha de livros, revistas e listas telefônicas antigas – pleonasmo proposital – acumula um bom meio século de poeira e lembranças. Ao lado, um telefone em baquelite, o dial preso por um cadeado cuja chave certamente anda perdida por aí. Os meninos se divertem com a peça, hoje digna de museu. Mas o que interessa a eles é a segunda sala, onde estão expostos os relógios em conserto, à venda, ou aguardando o retorno dos clientes.

Predominam os relógios de parede, aqueles que ganhavam destaque na sala de visita das casas senhoriais. Relógios ornados, em caixas de madeira trabalhada, relógios em recortes elaborados, relógios pintados nas cores de chalés suíços, relógios de carrilhão, os números em algarismos romanos.

Olhe esse! – mostra Seu Jairo, aparentemente mais motivado a exibir as peças do que a receber mais um trabalho no labirinto dos delicados mecanismos dos relógios. Com as pontas dos dedos ele gira o ponteiro dos minutos, e a cada quarto de uma hora fictícia, que passa voando, o relógio toca um trecho da Ave Maria. Olhe esse outro! – e um cuco minúsculo e sonoro sai de seu ninho, uma portinhola que se abre no topo do relógio, anunciando falsas horas.

É possível que cada um deles tenha uma história, como tem o relógio do meu bisavô, um médico que palmilhava a cavalo os sertões do Ceará para atender seus pacientes. Em uma dessas viagens, teve a tristeza de apalpar seus bolsos e sentir a ausência da peça na algibeira, certamente caída no meio do mato das trilhas e veredas interioranas.

Tempos depois, ao concluir o tratamento de um paciente sem maiores recursos, recebeu dele, ao invés dos mil réis, o seu dito relógio e uma história de achamento no meio do mato, onde foi visto iluminado pelo sol como um espelho dourado.

Coisa simples – Seu Jairo tranquiliza em tom profissional, preenchendo a ficha para devolução da peça. Dia e hora estão marcados, como marcado se encontra tudo na nossa vida de usuários temporários das horas, dos minutos, dos segundos que nos foram concedidos. Resta ver o que cuidamos de fazer nesse meio tempo, enquanto não chega o dia da entrega.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

O fundamento da crise se deu quando a política passou a pedir ao Supremo que resolvesse a política

Alerta: IA se organiza sozinha, forma uma “gangue” e ataca

Três pesquisas medem o mesmo Ceará e encontram distâncias diferentes entre Ciro e Elmano

Focus + Atlas para o Senado: Cid e Luizianne empatam na liderança; Wagner e Alcides travam disputa pela direita

Ciro e Elmano

Focus Poder/Atlas: Ciro lidera, Elmano encosta e diferença cai para 2,6 pontos

Atlas/Focus Poder, Datafolha e Quaest: três pesquisas em campo no Ceará deixam mercado político nervoso

Atlas/Bloomberg: Lula lidera 1º turno, mas entra na eleição com rejeição maior que aprovação

Data centers: Congresso começa a discutir política para setor que já movimenta mais de R$ 380 bilhões no Ceará

MAIS LIDAS DO DIA

No data was found