STJ suspende processos judiciais sobre Airbnb em condomínio

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O Plenário do STJ.| Foto: Bárbara Cabral / STJ​

Entenda o caso – O Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu levar ao rito dos recursos repetitivos uma das discussões mais relevantes do mercado imobiliário brasileiro: condomínios residenciais podem impedir locações por curta temporada realizadas por plataformas digitais, como Airbnb, mesmo sem previsão expressa de proibição na convenção condominial?

A controvérsia foi cadastrada como Tema 1.443 dos recursos repetitivos e será julgada pela Segunda Seção da Corte. Até a definição da tese, todos os processos semelhantes em tramitação no país permanecerão suspensos.

Por que isso importa

O julgamento tem potencial para redefinir a forma como milhares de imóveis são explorados economicamente em todo o Brasil.

A decisão afetará diretamente:

  • Proprietários que utilizam Airbnb como fonte de renda;
  • Investidores imobiliários;
  • Condomínios residenciais;
  • Síndicos e administradoras;
  • Incorporadoras;
  • Plataformas digitais de hospedagem;
  • Setor turístico e economia compartilhada.

Mais do que uma disputa entre moradores e anfitriões, o caso envolve o equilíbrio entre o direito de propriedade e o direito coletivo à segurança, ao sossego e à finalidade residencial dos condomínios.

O que exatamente o STJ vai decidir

A tese submetida ao rito repetitivo busca responder a uma pergunta objetiva:

A cláusula de destinação residencial prevista na convenção de condomínio é suficiente para impedir locações de curta temporada realizadas por plataformas digitais ou é necessária uma proibição expressa?

A resposta terá efeito vinculante para tribunais de todo o país, uniformizando uma jurisprudência que atualmente apresenta decisões divergentes.

O precedente que mudou o debate

A afetação do tema ocorre poucas semanas após uma decisão histórica da Segunda Seção do STJ. Em maio de 2026, o colegiado decidiu que a exploração habitual de imóveis por meio de plataformas como Airbnb pode descaracterizar a finalidade exclusivamente residencial dos condomínios.

Na ocasião, prevaleceu o entendimento de que as estadias de curta duração não se enquadram perfeitamente nem como locação tradicional nem como hospedagem hoteleira, constituindo uma modalidade contratual atípica.

O STJ também concluiu que, quando o condomínio possui destinação residencial, a autorização para esse tipo de atividade depende da aprovação de pelo menos dois terços dos condôminos, conforme prevê o artigo 1.351 do Código Civil.

O argumento dos condomínios

Os defensores da restrição sustentam que a rotatividade constante de hóspedes altera completamente a dinâmica residencial do edifício. Entre os principais argumentos estão:

  • Aumento do fluxo de pessoas desconhecidas;
  • Riscos à segurança dos moradores;
  • Maior utilização das áreas comuns;
  • Dificuldade de fiscalização;
  • Perda da característica residencial do empreendimento.

Para esse grupo, a simples previsão de uso residencial já seria suficiente para impedir atividades que se aproximem de exploração econômica típica de hospedagem.

O argumento dos proprietários

Já os proprietários e investidores defendem que a locação por temporada é modalidade expressamente reconhecida pela legislação brasileira. Segundo essa corrente, restringir o uso da unidade sem previsão expressa na convenção representa limitação indevida ao direito de propriedade.

O entendimento adotado por diversos tribunais estaduais tem sido justamente o de que qualquer restrição ao exercício da propriedade deve estar claramente prevista na convenção condominial e aprovada pelo quórum legal adequado.

O impacto econômico

O julgamento também possui forte dimensão econômica. Nos últimos anos, plataformas de hospedagem transformaram o mercado imobiliário, especialmente em cidades turísticas, capitais e regiões litorâneas. Muitos investidores passaram a adquirir imóveis especificamente para exploração em locações de curta temporada, frequentemente com rentabilidade superior à locação tradicional.

Uma eventual tese mais restritiva poderá afetar diretamente a viabilidade financeira desses investimentos e alterar estratégias de aquisição de imóveis em diversas regiões do país.

O que acontece agora

Com a afetação do Tema 1.443:

  • Todos os processos semelhantes ficam suspensos nacionalmente;
  • Tribunais estaduais deverão aguardar a definição do STJ;
  • A tese que vier a ser fixada servirá como orientação obrigatória para casos futuros.

Na prática, o julgamento poderá encerrar anos de insegurança jurídica sobre o tema e estabelecer, pela primeira vez, uma diretriz nacional uniforme para a utilização de plataformas como Airbnb em condomínios residenciais.

Leitura Focus Poder

O caso Airbnb talvez seja a disputa mais emblemática da nova economia digital dentro do Direito Privado brasileiro. De um lado, está o proprietário que busca monetizar seu imóvel utilizando plataformas tecnológicas que revolucionaram o turismo mundial. Do outro, moradores que adquiriram unidades em empreendimentos concebidos para uso estritamente residencial e que temem a transformação dos edifícios em verdadeiros hotéis informais.

Ao julgar o Tema 1.443, o STJ não decidirá apenas uma questão condominial. A Corte definirá até onde vai o direito individual de explorar economicamente a propriedade privada e onde começa o interesse coletivo de preservação da finalidade residencial dos condomínios.

O resultado poderá se tornar um dos precedentes mais relevantes do Direito Imobiliário brasileiro na era da economia compartilhada.

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