O Ceará foi a primeira província a fazer uso sistema métrico decimal, em agosto de 1865, passando a substituir as centenárias medidas de braças e palmos, de léguas e alqueires, de libras e arrobas pelos cálculos bem mais simples de gramas, quilos, toneladas, centímetros, metros, quilômetros.
Portanto, há mais de 160 anos convivemos diariamente com esses parâmetros, pelos quais medimos nossas ações e um sem-fim de detalhes das nossas vidas.
Persistem, porém, as exceções, aquelas que nascem do afeto, costume, do coração.
Apesar de haver passado tempo mais que suficiente para plena adaptação, nenhuma razão lógica se apresenta para explicar a preservação de termos que continuamos a utilizar. Ao que parece, nos apegamos a eles com um sentimento de nostalgia impensada por outras eras que sequer testemunhamos.
Impossível mensurar um trisco, um tico, um tiquinho, unidades representativas de um quase nada. A mãe implora ao menino que coma algo do almoço, nem que seja só um tantinho. Pelo amor de Deus, magro como está, já parece mais é com um graveto, com um fiapo de gente, dá até aflição.
O avô não caiu por um triz. Tropeçou com a chinela no tapete da sala, bambeou, vergou os joelhos e não caiu. Foi salvo por essa medida indicadora de curtíssima distância, chamada triz, de valor desconhecido, porém quantas vezes vital.
O ônibus que passou ao lado do carro não o atingiu por uma mão de tinta. Cacófato à parte (o “mamão” violador do discurso correto), é prestada claríssima ilustração de um acidente que esteve a um fio de acontecer, e ninguém se preocupa em explicitar a espessura desse fio salvador.
Por uma unha o atacante não cumpria seu objetivo de gol na partida decisiva do futebol: uma unhazinha de nada, recortada feito lua minguante, ia com certeza vencer o obstáculo da trave e fazer estremecer a rede para a glória da torcida.
Quanto deve medir o que se mantém vigorando apenas nos arrabaldes da fria e precisa contabilidade decimal, o popular bilisco de alguma coisa. E é um bilisco mesmo, porque belisco mora é em endereço de dicionário, não em moldura de sentimento.
Um bilisquinho da sobremesa, uma pontinha de colher que sequer altere a aparência do prato, não pode causar remorso nem contrariar os comandos médicos.
Difícil avaliar o peso de um punhado, de uma pitada de algo na comida. Uma gota do tempero, um quase nada, um leve chuvisco de sal, quanto pesarão.
Um farelo da farofa, voando da concha da mão para dentro da boca, em movimento articulado desde o DNA dos antepassados, quem há de saber o peso que tem. Para acompanhar, a flexível medida de um dedinho ou dois de café.
Um tanto assim, um tanto assado, uma coisinha só para provar. A moça apaixonada e não correspondida não come, perdeu peso, parece que vive por uma peínha de nada. Virou um vem-vem em forma de gente, tornou-se fôrma da de incompreendida paixão.
Quanto pesa na balança um cheiro, um cheirinho de doce aconchego. Que diferença faz a quem vive uma vida mansa fazer, ou deixar de fazer, um carocinho a mais de coisa nenhuma.
Ficam de lado as leis. Vale muito mais o que fala à tradição.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







