
A leitura dos cinco quadros do Senado da pesquisa Focus Poder + AtlasIntel mostra uma disputa mais organizada em duas chapas do que em quatro candidaturas isoladas. Mas é preciso ter cuidado: os números são uma fotografia, e a margem de erro é de ±2 pontos percentuais, com 95% de confiança. A pesquisa ouviu 1.774 eleitores entre 6 e 11 de agosto.
O quadro geral
No consolidado de 1º e 2º votos, os quatro principais candidatos aparecem assim:
* Luizianne Lins (Rede): 24,0%
* Cid Gomes (PSB): 23,7%
* Capitão Wagner (União Brasil): 21,7%
* Alcides Fernandes (PL): 15,9%
* General Theophilo: 1,1%
* Catarina Matos: 0,4%
* Reginaldo Ferreira: 0,3%
A pergunta é especialmente importante porque o eleitor cearense escolherá dois senadores. Portanto, o consolidado reúne as duas escolhas feitas pelos entrevistados no levantamento Focus Poder + Atlasintel.
O resultado produz uma primeira constatação:
Luizianne e Cid somam 47,7% das escolhas.
Wagner e Alcides somam 37,6%.
Não significa que 47,7% dos eleitores votarão necessariamente na dupla governista. Significa que, considerando o conjunto dos dois votos, o campo formado por Cid e Luizianne concentra hoje uma fatia maior das escolhas do eleitorado do que o campo formado por Wagner e Alcides.

1. A dobradinha Cid + Luizianne
É a combinação que apresenta os números mais interessantes.
Cid Gomes
1º voto: 32,6%
2º voto: 14,8%
Consolidado: 23,7%
Luizianne Lins
1º voto: 19,6%
2º voto: 28,4%
Consolidado: 24,0%
A distribuição é muito clara. Cid é o candidato de primeira escolha. Luizianne é a candidata de segunda escolha.
Esse é o ponto mais importante de toda a pesquisa. Cid tem 13 pontos a mais que Luizianne no primeiro voto.
Mas Luizianne tem 13,6 pontos a mais que Cid no segundo voto. Ou seja: os dois apresentam forças complementares. Isso ajuda a explicar por que, quando os dois votos são consolidados, eles praticamente empatam:
Luizianne 24,0%
Cid 23,7%
2. A dobradinha Wagner + Alcides
O mesmo fenômeno aparece, em menor intensidade, no campo oposicionista.
Capitão Wagner
1º voto: 24,1%
2º voto: 19,3%
Consolidado: 21,7%
Alcides Fernandes
1º voto: 14,8%
2º voto: 16,9%
Consolidado: 15,9%
Também aqui existe uma hierarquia: Wagner é o principal nome. Alcides é o segundo nome da chapa. Mas a diferença é maior do que na chapa Cid-Luizianne.
No consolidado:
Cid 23,7% x Luizianne 24,0% contra Wagner 21,7% x Alcides 15,9%. A dupla governista está, portanto, mais equilibrada internamente.
3. O dado que mais chama atenção: o segundo voto
Se fosse necessário escolher apenas um quadro para entender a eleição, veja o do 2º voto.
Ele mostra:
1. Luizianne — 28,4%
2. Wagner — 19,3%
3. Alcides — 16,9%
4. Cid — 14,8%
Isso muda bastante a leitura de uma pesquisa tradicional. Cid lidera com folga quando o eleitor é perguntado: “Qual seria o seu primeiro voto?” Mas, quando o eleitor é perguntado:“Agora, qual seria o seu segundo voto?” Luizianne dispara para a liderança.
É um sinal de que ela tem capacidade de ser escolhida por eleitores que talvez não a tenham como prioridade número 1, mas que a consideram uma boa opção para completar o voto para o Senado.
4. O que os cruzamentos políticos mostram
Aqui a pesquisa fica ainda mais reveladora. Entre os eleitores que declararam ter votado em Elmano de Freitas no primeiro turno de 2022:
* Luizianne: 40,1%
* Cid: 38,2%
* Capitão Wagner: 3,5%
* Alcides: 0,7%
Já entre os que votaram em Capitão Wagner para governador em 2022:
* Capitão Wagner: 45,4%
* Alcides Fernandes: 40,7%
* Cid Gomes: 3,0%
* Luizianne Lins: 3,5%
Esses números são muito fortes. Eles mostram que os dois grandes eleitorados políticos estão se comportando de maneira bastante coerente com suas respectivas chapas. No eleitorado de Elmano, Cid e Luizianne dominam. No eleitorado de Wagner em 2022, Wagner e Alcides dominam.
5. A divisão ideológica aparece também no voto presidencial
O cruzamento com o segundo turno presidencial de 2022 reforça a mesma fotografia. Entre eleitores que declararam voto em Lula:
* Luizianne: 36,7%
* Cid: 35,3%
Entre os eleitores de Jair Bolsonaro:
* Capitão Wagner: 45,9%
* Alcides Fernandes: 45,2%
É provavelmente a evidência mais clara de que a disputa está estruturada em dois campos políticos.
De um lado, o eleitorado identificado com Lula e Elmano se concentra em Cid e Luizianne.
De outro, o eleitorado identificado com Bolsonaro e Wagner se concentra em Wagner e Alcides.
6. Quem representa cada campo?
É preciso, porém, evitar uma classificação simplista.
Campo governista
Luizianne Lins é o nome mais claramente identificado com a esquerda. Cid Gomes está hoje no campo governista e pode ser situado no centro/centro-esquerda, mas sua trajetória política é mais ampla e menos ideologicamente definida do que a de Luizianne. Por isso, Cid + Luizianne não é uma chapa ideologicamente homogênea.
É uma aliança eleitoral que junta dois públicos: Cid → centro/centro-esquerda e eleitorado governista mais amplo. Luizianne → esquerda e eleitorado mais ideologizado.
Campo oposicionista
Capitão Wagner representa a oposição de direita/centro-direita, com forte identificação com a pauta de segurança e com o eleitorado conservador. Alcides Fernandes é o nome mais claramente identificado com a direita bolsonarista e com o PL.
Portanto: Wagner → direita/centro-direita com maior capacidade de ampliar o eleitorado. Alcides → direita bolsonarista mais ideologicamente identificada.
7. A pesquisa mostra duas chapas, mas não mostra necessariamente duas votações fechadas
Esse é um cuidado importante. Os quadros não perguntam diretamente: “Você votaria em Cid Gomes e Luizianne Lins?”
Nem perguntam: “Você votaria em Capitão Wagner e Alcides Fernandes?” O que existe são perguntas independentes para primeiro voto e segundo voto. Por isso, não podemos afirmar que os 47,7% correspondem a 47,7% de eleitores que votarão necessariamente na dupla Cid-Luizianne. Pode haver voto cruzado. Um eleitor pode, por exemplo, escolher:
Cid + Wagner
ou
Luizianne + Wagner
ou
Cid + Alcides
entre várias outras combinações. O que a pesquisa permite dizer é que a estrutura dos resultados favorece claramente a hipótese de duas dobradinhas principais.
8. Mas a dobradinha governista parece mais eficiente
Aqui está uma diferença importante. A soma de Cid e Luizianne chega a 47,7% no consolidado. A soma de Wagner e Alcides chega a 37,6%. Além disso, os dois governistas têm desempenho muito próximo:
24,0% x 23,7%.
Na oposição:
21,7% x 15,9%.
A diferença interna entre os dois governistas é de apenas 0,3 ponto. Entre Wagner e Alcides, chega a 5,8 pontos. Isso sugere que a chapa governista está mais equilibrada. Mas é importante não transformar isso em prognóstico de eleição: com margem de erro de ±2 pontos, pequenas diferenças individuais não devem ser tratadas como vantagem definitiva.
9. Luizianne é o fenômeno mais interessante
A pesquisa dá a Luizianne uma característica eleitoral muito particular. Ela não é a principal escolha. No primeiro voto, está atrás de:
* Cid;
* Wagner.
Mas é a primeira colocada no segundo voto. Isso explica sua liderança no consolidado. É uma situação diferente da de Alcides. Alcides também cresce no segundo voto, mas parte de um patamar muito menor: 14,8% no primeiro voto → 16,9% no segundo. Luizianne faz um salto muito maior: 19,6% → 28,4%. Esse é um dos dados que mais merece atenção na campanha.
10. Cid tem outra vantagem: a força do primeiro voto
Cid aparece com 32,6% no primeiro voto. É o maior índice individual entre todos os candidatos nos quadros de primeiro voto. Isso significa que sua candidatura possui uma base de voto prioritário muito forte. O desafio para Cid, portanto, não parece ser tanto conquistar o primeiro voto. É transformar sua força individual em uma força de chapa.
Em termos políticos: Cid precisa levar Luizianne junto.
11. Wagner tem o mesmo desafio com Alcides
A lógica é semelhante. Wagner tem: 24,1% no primeiro voto. Alcides: 14,8%. Se parte importante dos eleitores de Wagner não der o segundo voto a Alcides, a oposição corre o risco de eleger apenas Wagner, dependendo do comportamento dos demais eleitores.Por isso, a campanha da direita terá uma tarefa muito clara: convencer o eleitor de que o segundo voto deve permanecer dentro da própria chapa.
O mesmo vale para o campo governista, mas os números atuais sugerem que Cid e Luizianne estão mais próximos no consolidado.
12. A eleição ainda está aberta
Apesar da vantagem da dupla governista no consolidado, seria exagerado dizer que as duas vagas já estão definidas. Há pelo menos quatro razões:
1. Margem de erro: ±2 pontos percentuais.
2. Dois votos: o eleitor pode cruzar suas escolhas.
3. Campanha: os candidatos ainda precisam transformar intenção em voto efetivo.
4. Segundo voto: ainda existe uma quantidade relevante de eleitores que não consolidou sua segunda escolha — 8,0% não sabem e 9,7% indicam branco/nulo no segundo voto. Esse espaço é decisivo.
13. A síntese política
A pesquisa Focus Poder + AtlasIntel não mostra simplesmente:
Cid 23,7%
Luizianne 24,0%
Wagner 21,7%
Alcides 15,9%.
A leitura mais profunda é:
CHAPA GOVERNISTA
Cid + Luizianne
47,7% das escolhas consolidadas
CHAPA OPOSICIONISTA
Wagner + Alcides
37,6% das escolhas consolidadas
E há uma característica muito particular em cada lado: Cid é o primeiro voto. Luizianne é o segundo voto. Wagner é o primeiro voto. Alcides tenta consolidar o segundo voto.
O que realmente está em jogo
A eleição para o Senado no Ceará entrou numa fase em que não basta ser um candidato forte individualmente. É preciso construir uma votação de dupla. O campo governista parece ter conseguido isso de maneira mais equilibrada: Cid tem a força do primeiro voto e Luizianne tem a força do segundo.
A oposição também apresenta uma dobradinha clara: Wagner lidera a primeira escolha e Alcides aparece como seu complemento, mas ainda existe uma distância maior entre os dois. Por isso, a principal disputa da campanha não será apenas quem ficará em primeiro. Será quem conseguirá transformar o eleitor de um voto em eleitor de dois votos.
E essa é justamente a parte da eleição que os próximos levantamentos deverão mostrar com mais clareza. Em resumo: há dois blocos, quatro nomes fortes e duas dobradinhas. A governista Cid-Luizianne hoje tem maior volume agregado e maior equilíbrio interno. A oposicionista Wagner-Alcides tem uma hierarquia mais definida. O segundo voto — especialmente o de Luizianne e o de Alcides — pode ser o grande fator de definição das duas cadeiras.
De toda forma, muita calma nesa hora. É só o começo. Pra valer, pra valer, a capanha ainda vai dar seus primeiros passos.
Vejam os quadros da pesquisa Fous Poder/Atlasintel











