
A Fuvest, fundação responsável pelo vestibular da Universidade de São Paulo (USP), a universidade brasileira de maior prestígio acadêmico na América Latina, fará sua prova também em Fortaleza. A decisão tem um efeito que vai além da comodidade para os candidatos cearnses e de estados vizinhos: aproxima a USP de um dos maiores mercados de talentos do país e pode ampliar a saída de estudantes de alto desempenho que tradicionalmente alimentam as universidades federais do Nordeste, principalmente a Universidade Federal do Ceará (UFC). Portanto, um movimento estratégico e intelgente da USP. Na prática, uma política para atrair cérebros, talvez o maior dos ativos econômicos.
É a primeira vez que a Fuvest aplica o vestibular na capital cearense. A escolha não é casual. Fortaleza tem localização estratégica para candidatos do Norte e do Nordeste e uma malha aérea que facilita o deslocamento. Um teste realizado em julho, com 130 inscritos, serviu para medir a demanda. O resultado estimulou a mudança.
Até agora, um estudante cearense interessado na USP precisava incluir na preparação uma viagem a São Paulo, com passagem, hospedagem e alimentação. Com a prova em Fortaleza, esse obstáculo praticamente desaparece. A consequência mais importante é outra: a USP passa a disputar com muito mais facilidade os melhores estudantes do Ceará e da região.
O efeito sobre as federais
Não se trata de prever uma debandada de alunos da Universidade Federal do Ceará (UFC), nem de transformar USP e UFC em adversárias. A questão é mais simples e mais estratégica. Os estudantes que a Fuvest pretende atrair são, em boa parte, os mesmos que tradicionalmente disputam vagas nas universidades públicas de excelência do Ceará e de outros Estados nordestinos.
Ou seja: quando a USP reduz o custo e a dificuldade de prestar seu vestibular, aumenta o número de opções para esse grupo. E, entre as opções, está uma das universidades mais prestigiadas do país. A Fuvest informa que, hoje, entre 10% e 12% de seus candidatos já vivem fora de São Paulo. A presença de estudantes de outros Estados, portanto, não é novidade. A novidade é a universidade paulista começar a reduzir a distância física até esses candidatos.
Se a experiência de Fortaleza funcionar, a tendência é que outras cidades entrem no mapa.
São Paulo vem buscar o aluno
A mudança pode parecer pequena, mas altera a lógica da disputa. Durante décadas, o estudante nordestino que quisesse estudar em uma universidade paulista precisava se deslocar para fazer o processo seletivo. Agora, é a instituição paulista que começa a se deslocar, ainda que parcialmente, até o estudante.
Isso interessa especialmente ao Ceará. O Estado construiu uma justa e relevante reputação de formar alunos de alto desempenho. Esses estudantes sempre foram disputados localmente pelas universidades públicas e privadas, além de instititos de pont como o ITA e o IME. Agora, passam a ser mais acessíveis também às grandes instituições do Sudeste.
É uma disputa por talento que começa antes mesmo da escolha do curso.
Fortaleza virou mercado
A decisão da USP se soma a outros movimentos que mostram a transformação de Fortaleza em um polo capaz de atrair instituições de projeção nacional. O ITA escolheu a cidade para instalar seu primeiro campus fora de São José dos Campos, em um projeto que envolve R$ 445 milhões em investimentos.
O Ibmec, importante instituição de ensino superior que foma talentos na área de gestão, também decidiu instalar uma unidade em Fortaleza, movimento que aponta para a mesma direção: instituições nacionais passaram a enxergar no Ceará uma concentração de estudantes e profissionais que justifica investir na cidade. São movimentos diferentes, mas revelam uma mesma mudança de mercado.
Fortaleza deixou de ser apenas uma cidade que exporta estudantes para os grandes centros. Passou também a ser um lugar onde instituições nacionais querem estar para disputar esse público.
O desafio para a UFC
Para a UFC, o ponto não é impedir que um estudante cearense faça USP. Seria absurdo. Quanto maior o acesso dos estudantes brasileiros às melhores universidades, melhor. O desafio é fazer com que a excelência formada no Ceará também permaneça no Ceará. Pesquisa, bolsas, infraestrutura, internacionalização, conexão com empresas, oportunidades profissionais e perspectivas de carreira passam a pesar cada vez mais na escolha de um jovem que pode estudar em diferentes Estados.
Ao fim das contas, a competição deixou de ser apenas local. E começa cada vez mais cedo. Importante lembrar que a Unicamp entrou até antes à caça de cérebros ao expandir seu vestibular para pelos menos outras seis capitais, inlcsuive Fortaleza. A chegada da Fuvest em Fortaleza é especialmente simbólica porque atua justamente na porta de entrada: o recrutamento dos talentos.
O Ceará passou anos construindo uma educação capaz de formar estudantes competitivos nacionalmente. O sucesso dessa formação produz agora um novo desafio. O Ceará aprendeu a formar bons alunos. Agora, terá de disputar para mantê-los.







