Outros já escreveram sobre tal assunto, mas não custa retomá-lo. Em um belo dia de outubro, precisamente no dia 29, ano de 1890, estando prefeito de Fortaleza o capitão Manoel Nogueira Borges, foi decidido por ele e por seus cinco vereadores que a capital do Ceará se tornaria mais próxima de Nova Iorque.
Explica-se: a derrubada da Monarquia não completara ainda seu primeiro ano de existência. As coisas estavam mudando e o horizonte apontava novos tempos. Os Estados Unidos da América do Norte haviam sido um dos exemplos para ações libertárias, como a recente Proclamação da República. Porque não se aproximar um tanto mais daquele iluminado modelo e apresentar ao povo fortalezense algumas das suas vantagens.
Uma medida de impacto foi tomada. No território da teoria, visava simplificar a vida dos cidadãos e minimizar distâncias sociais: a partir do dia 31 daquele outubro as ruas da cidade abandonariam suas denominações tradicionais, passando a utilizar números para identificação. Da mesma forma, as praças teriam seus nomes alterados.
O sistema tinha sido bem elaborado, traçado em mapa esclarecedor pelo topógrafo Fernando Lima, hoje digitalizado pelo pesquisador Jonathan Kerbage. A partir da rua Formosa (Barão do Rio Branco), no sentido do nascente, as ruas teriam numeração ímpar. Para o poente a numeração seria par. Do então Boulevard Duque de Caxias para o Norte os números seriam ímpares, sendo pares na direção Sul. As ruas paralelas ao mar passariam a ser denominadas de Travessas.
Assim, e por força de Lei, a partir daquela data a Rua Major Facundo se chamaria Rua nº3, a Rua da Cadeia (General Sampaio) seria Rua nº4; a Rua da Boa Vista (Floriano Peixoto) ganharia o nº 5; a Rua da Lagoinha (Tristão Gonçalves) passaria a ser nº 8. Com relação às novas travessas, o Boulevard Duque de Caxias seria Travessa nº1; a Rua do Livramento (Clarindo de Queiroz) Travessa nº2; a Rua do Cajueiro (Pedro Borges) Travessa nº7-B; a Rua dos Coelhos (Domingos Olímpio) Travessa nº8; a Rua do Sol (Costa Barros) ganharia o nome (ou o número…) de Travessa nº11-A, e daí por diante.
Quanto às praças, o ímpeto das mudanças levaria a municipalidade a enveredar também pela troca de denominação delas, substituindo o nome de Praça do Ferreira por Praça Municipal; Praça José de Alencar por Praça do Mercado Público; Praça General Tibúrcio por Praça 10 de Novembro; Praça do Visconde de Pelotas por Praça Pelotas; Praça do Marquês de Herval por Praça do Patrocínio (as duas últimas foram desprovidas de seus títulos de nobreza…).
Aconteceu o esperado. Nada mudou.
Os próprios jornais que publicaram o Edital da Intendência Municipal – o jornal Libertador, o Cearense, entre outros –, ignoraram solenemente a ordem, mantendo no topo de suas páginas os endereços pelos quais eram conhecidos. E continuaram divulgando sem alterações os anúncios publicitários de seus clientes com os nomes tradicionais das ruas.
Esqueceram, o Intendente e seu Conselho, de consultar a população. Na conturbada transição da Monarquia para a República se perdera o sentimento da voz das ruas, tanto que, no dia 28 de abril de 1891, exatos seis meses após assinado o Edital, estando já a Intendência aos cuidados de Joaquim de Oliveira Catunda, era revogada a resolução. Tudo voltava a ser como dantes, no tão citado Quartel de Abrantes.
Essas curiosas informações se encontram explicitadas nos jornais da época e no imperdível livro Cronologia Ilustrada de Fortaleza, assinado pelo historiador e pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez. No meu entender, uma pequena mostra de que nem sempre o que é bom para Nova Iorque vai funcionar nesse rebelde Ceará…
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







