50 anos de amizade, por Leopoldo Cavalcante

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Leopoldo Cavalcante é criador/autor do @resenhador e articulista de cultura do Focus. Estuda Jornalismo na Cásper Líbero (SP) e Direito no Largo São Francisco (USP).

50 anos de amizade

Meio século de amizade não é para qualquer um. No meio artístico, então… Intrigas, paixões conflitantes, visões de mundo que se chocam em algum momento, são sempre razões para eventuais brigas que, em alguns casos, geram rupturas homéricas. Entre amigos brigados, lembro dos escritores Garcia Márquez e Vargas Llosa que nunca mais se falaram por divergências futuras sobre o socialismo. Llosa, marxista mais radical na juventude, abandonou por completo a ideologia de esquerda e passou décadas sem falar com o Garcia Márquez. Ou, mais próximo da realidade cearense, da briga entre Belchior e Fagner. Eles compunham juntos, mas não se bicavam. Um dia, em frente a um hotel de São Paulo, Fagner chegou a ameaçar Belchior com uma faca. Artistas, em geral, são movidos até demais pelas paixões.
Mas, em alguns casos, as paixões podem ser fraternais e geram frutos prósperos. Um dos mais belos shows que já presenciei foi o “Dois amigos, meio século de musica”, com Caetano Veloso e Gilberto Gil. A primeira vez que assisti, eles estavam em sintonia total, trazendo música de ambos como se tivessem sido feitas para cantarem e tocarem juntos. Na segunda vez, o Gil tinha acabado de sair de complicações hospitalares. Ele estava fraco, roxo, inchado. Dedilhava mal e cantava rouco. E foi nesses momentos de fraqueza que o sublime da amizade se sobressaia. Às vezes, o Caetano perscrutava a alma clamando por vitalidade do Gil e trazia nos olhos toda a compaixão de um amigo vendo o outro em necessidade. Tocava mais lento, no ritmo do Gil, como se estendendo as mãos para trazê-lo à superfície.
Nas artes plásticas, a conexão de amizade tem feições mais singelas. Encontrá-las demanda um trabalho de pesquisa denso; histórias orais passadas por um grupo seleto ou desenhos de cenários similares. Monet e Renoir, por exemplo, nos anos de estudos iam juntos ao parque e pintavam paisagens parecidas. Uma das formas de averiguar se um quadro de um é verdadeiro é procurar o equivalente do outro. No Brasil, temos o caso do Alfredo Volpi (1896-1988) e do Bruno Giorgi (1905-1993).
Em “Estética de uma amizade”, exposto na galeria Pinakotheke, de São Paulo, a trajetória de ambos está lado a lado, começando pelo figurativismo de início de carreira até o abstrato modernista pelo qual são conhecidos. São cinquenta anos de amizades representados em detalhes como os desenhos de Volpi das quatro mulheres de Giorgi [1]; o retrato de Giorgi por Volpi e as cabeças de Volpi e Mario de Andrade esculpidas por Giorgi [2]; nus femininos assinados pelos dois artistas; a interpretação discordante do poema Balada de Santa Maria Egipcíaca de Manuel Bandeira[3] etc.
Esses últimos quadros ilustram bem uma amizade. Como me contou Victor Perlingeiro, um dos que trabalhou para achar o equivalente do quadro da Santa Maria Egipcíaca de Volpi, foi numa gaveta no ateliê de Giorgio em Petrópolis que apareceu o desenho de uma mulher vermelha, rubra de força, autonomia e pecado, contrastando com a singela mulher desenhada por Volpi, com seus cabelos cobrindo o sexo, o fundo azul virginal e uma auréola. A história do poema conta que a Santa seguia em direção à terra do Senhor, Jerusalém, quando se deparou com um rio. Para atravessá-lo, um homem com um barco demandou seu corpo. O poema termina dizendo que a Santa “[…] despiu // O manto, e entregou ao barqueiro // A santidade da sua nudez”. Os dois artistas brigaram sobre o final da história. O quadro do Volpi foi exposto, junto da sua interpretação, enquanto a versão do Giorgio permaneceu engavetada até hoje.
Entre os dias 25 de março e 25 de maio de 2019, o público poderá usufruir da prolífera produção de dois marcos do modernismo brasileiro em diálogo. Uma amizade que não terminou em briga de faca, em chifre ou disputa ideológica, mas em eterna arte, no sentido mais sublime da palavra. Clássicos e inéditos, expostos lado a lado, compondo a estética de uma amizade.
Onde: Pinakotheke São Paulo; Rua Ministro Nelson Hungria, 200, Morumbi.
Quando: 25 de março até 25 de maio de 2019.
Curadoria: Max Perlingeiro e Pedro Mastrobuono
Quanto: de graça.

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