Era impossível não ver a cicatriz na cabeça do jovem motorista do táxi. Sentada logo atrás dele, conhecedora do longo trajeto que o carro atravessava, preocupada em economizar a bateria do celular, só me restava olhar para a frente – justamente onde estava a cabeça dele e a dita cicatriz.
Era esteticamente agradável, em termos de precisão geométrica. Uma linha reta posicionada na nuca, um traço vertical com cerca de 5 ou 6 centímetros, sem um sinal sequer de queloide, mimetizada na cabeça do rapaz como a linha de um alvo traçado a laser.
Evidente que eu precisava perguntar a razão para tal cicatriz.
Evidente por quê, por qual razão – questiona meu cérebro ante ao inapelável impulso dominante. Nem sempre se precisa saber o que está na raiz das coisas desse mundo – argumentavam as células do bom senso. Existem os sentimentos, as emoções, as longas histórias detrás dos fatos, as lembranças despertadas ao se tratar de temas que interessam somente à pessoa envolvida com eles.
Mas o que teria causado o surgimento daquela cicatriz. E logo ali, em uma região tão delicada como é a nuca, onde os pelos se arrepiam em pressentimentos de perigos, onde se dá o entroncamento entre a cabeça e o corpo, a via principal por onde transitam as ramificações nervosas que fazem de nós o que somos.
Um acidente no qual a nuca houvesse encontrado com a quina de uma calçada. Uma agressão menos casual, mais grave. Um trauma em um choque de veículos, ferro ou vidro extraindo sangue. Uma ponta afiada de metal riscando a pele, desenhando uma marca indelével a ser carregada pela vida. A introdução de um chip controlador, chego a pensar, mergulhando em esferas tecnológicas, imaginando um motorista controlado por inteligências artificiais.
Quarteirões passam velozes. O sol do dia claro se reflete entre o encosto do assento e a nuca quase raspada do rapaz, destacando a cicatriz em um belo tom de cor de rosa enquanto eu mordo a língua para não disparar a pergunta.
A lógica me convencera que seria inadequado perguntar ainda no meio do caminho. Vai que o rapaz ia se fechar em um silêncio agressivo; vai que eu ia ver no espelho retrovisor o rolar dos olhos dele para o alto, sem paciência de ouvir pela milésima quinta vez a mesma pergunta; vai que me retornaria com outra pergunta, ao estilo o-que-é-que-a-senhora-tem-com-isso; vai que eu terminaria a viagem embrulhada no meu surrado manto das profusas desculpas.
A uns 400 metros do destino, em território familiar, perto o suficiente para suportar silêncios ou demonstrações de agressividade, me veio a coragem.
Desculpe perguntar – antecipei, amaciando o terreno – mas qual a causa dessa sua cicatriz na nuca.
Depois do que me pareceu uma longa e ruminativa pausa o rapaz apresentou a explicação. Quando criança, sofria terríveis dores de cabeça que angustiavam os pais. Não conseguia erguer-se da cama, faltava às aulas, não brincava com os colegas. Perdera alguns anos da sua infância. Quando as dores se agravaram, e o movimento das pernas começou a ser prejudicado, foi levado a um centro neurológico infantil onde receberam o diagnóstico de um tumor pressionando a medula.
A cirurgia foi feita ainda a tempo, com a devida competência. Curara-se por completo e a cicatriz crescera com ele. Verdade que nem lembrava dela, exceto quando passageiros (como eu…) tocavam no assunto.
Ainda bem que foi apenas isso, e teve final feliz, reflito. Até chegar ao destino, trocamos relatos de terror referentes a males que necessitam de cirurgia, enquanto louvamos a competência dos médicos responsáveis pelo sucesso delas. E eu me prometo, em silêncio, domesticar esse cavalo bravo, essa curiosidade insaciável sobre cicatrizes alheias e as histórias que estão guardadas lá dentro, e que às vezes entram pela nuca direto ao coração.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







