
Durante muito tempo, o oceano esteve fora do mapa — não apenas no sentido geográfico, mas sobretudo no estratégico. Aquilo que não é visível dificilmente vira prioridade; e, quando o mar não aparece como território a ser planejado, acaba sendo tratado como “tema” setorial, disperso entre agendas que pouco conversam entre si. O resultado é conhecido: fragmentação, baixa governança integrada do espaço marinho e subaproveitamento de um ativo capaz de orientar decisões políticas, econômicas e sociais.
O contraste fica ainda mais evidente quando se olha para a escala do território marítimo. O Brasil tem jurisdição sobre cerca de 5,7 milhões de km² de Amazônia Azul. Nesse contexto, a dimensão do Ceará também chama atenção: são aproximadamente 573 km de linha de costa e uma área marítima estimada em 249 mil km² — cerca de 67% maior do que a área terrestre do estado (148.894,44 km²). Ainda assim, o oceano permanece marginal em muitas estratégias de desenvolvimento, como se a “frente marítima” não fosse parte do território a ser pensado, protegido e convertido em oportunidade.
Há aí um paradoxo: somos uma potência marítima que ainda não se reconhece plenamente como tal. Em parte, porque uma parcela relevante da sociedade ainda não associa, de forma integrada, a liderança do Ceará em pesca e aquicultura, energias renováveis, cabos submarinos e turismo às oportunidades da Economia Azul. Esse cenário, porém, começa a mudar quando o litoral deixa de ser apenas paisagem e passa a ser entendido como uma infraestrutura econômica ecossistêmica — um espaço onde diferentes cadeias produtivas se encontram e podem ser coordenadas. Daí, a Economia Azul ganha sentido: não como um setor isolado, mas como uma forma de organizar o desenvolvimento a partir do oceano, gerando riqueza sem comprometer os ecossistemas. Quando a conservação se torna um ativo econômico, a sustentabilidade deixa de ser um limite e passa a ser uma vantagem competitiva. A partir daí, temas que costumavam caminhar separados — turismo costeiro e náutico, portos e logística, energias renováveis (como a eólica offshore) e esportes à vela — podem ser vistos como partes de um mesmo desenho territorial: em alguns momentos, competem; em outros, podem (e devem) cooperar.
É justamente nesse enquadramento que o Ceará se destaca. Durante décadas, o turismo do estado se apoiou em três pilares clássicos — sol, praia e paisagem —, mas um quarto elemento, sempre presente e, por muito tempo, subestimado, passou a ocupar o centro da cena: o vento.
Os ventos alísios no Ceará têm características raras em escala global: constância, previsibilidade e uma temporada longa. Quando um recurso natural se comporta assim, ele deixa de ser apenas “clima” e passa a funcionar como infraestrutura, no sentido mais concreto do termo: algo que organiza fluxos, reduz incertezas e viabiliza economia.
A partir daí, os esportes à vela — primeiro, o windsurf, nos anos 80, e depois, com muito mais força, o kitesurf — passaram a redesenhar o litoral cearense. Locais como o Cumbuco e o Preá, para ficar apenas na Meca e na sensação do momento, consolidaram-se como destinos internacionais, atraindo turistas de maior valor agregado, impulsionando hotéis e serviços especializados e estimulando a qualificação da infraestrutura. Ao mesmo tempo, novas dinâmicas de ocupação e trabalho — como a segunda residência e o nomadismo digital — ajudam a alongar a permanência e a distribuir consumo ao longo do ano.
Para dimensionar a escala desse movimento, vale olhar os números: em 2025, o Ceará recebeu aproximadamente 3,48 milhões de turistas e a renda gerada pelo setor ficou em torno de R$ 24,2 bilhões, conforme dados divulgados pela Secretaria estadual de Turismo. Nesse universo, o turismo esportivo e de aventura — com destaque para os esportes de vento — registrou cerca de 350 mil visitantes, com gasto médio per capita de R$ 3.965,45, o que sinaliza um perfil de consumo mais qualificado e efeitos em cadeia na economia local.
Mas o efeito mais interessante não está apenas nos números, e sim na reorganização do território. Aos poucos, o Ceará deixa de ser somente um destino para se afirmar como uma rota: um litoral conectado por uma circulação contínua de pessoas, serviços e investimentos, capaz de integrar municípios e espalhar oportunidades.
O chamado “corredor do vento” conecta diferentes pontos do litoral — de Jericoacoara ao Cumbuco, passando por Preá, Trairi e Icaraí — e produz efeitos que vão além do turismo. Ele aumenta a circulação de visitantes, favorece a integração territorial, amplia a distribuição de renda e ativa economias municipais que antes ficavam à margem dos grandes circuitos. Trata-se, assim, de um desenvolvimento costeiro menos concentrado e mais sustentado por redes e serviços.
No fundo, o que se vê no Ceará é um exemplo claro de como os ativos naturais podem ser reinterpretados economicamente quando há visão e coordenação. O vento, antes apenas um dado do clima, passa a estruturar cadeias produtivas; o oceano, antes periférico, assume um papel central; e o litoral deixa de ser uma borda para se tornar um eixo de desenvolvimento — com potencial para combinar crescimento, inovação e conservação.
Nem toda costa tem um mar competitivo. Nem todo lugar com mar tem vento. E nem todo território que reúne esses dois ativos conta com uma articulação institucional capaz de transformá-los em estratégia. O Ceará, por suas condições naturais e pela governança construída em torno do tema, reúne os três elementos — oceano, vento e coordenação — e, com isso, estabelece as bases para uma Economia Azul com identidade própria.
Talvez esse seja o ponto mais relevante: não se trata apenas de “aproveitar o mar”, mas de reconhecer o seu papel na reorganização do desenvolvimento e de tratar o território marinho e costeiro com a mesma seriedade com que se trata o território em terra firme.
Porque, no fim, o que entra no mapa tende a entrar na agenda. E o oceano — do mar ao vento — volta ao mapa do Ceará como plataforma de prosperidade, inovação e sustentabilidade.







