A triste memória desmembrada de um grande homem; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

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Construída pela família Fausto Cabral, esta casa em ruínas, situada na rua Jaime Benévolo, nº 190, foi residência da família de Antônio Martins Filho por pelo menos quatro décadas.

A porta, de estilo incomum em meio às edificações típicas de Fortaleza, exibe traços marcantes da arquitetura dos séculos XIX e XX. Esta casa terá sido uma das raras edificações residenciais da cidade com forte influência da região da Alsácia-Lorena. As paredes distinguem-se pelas fachwerks — o estilo enxaimel que lhe empresta ares de uma cidade meio francesa, meio alemã. É visível a influência do norte da França, dos contornos do Reno, nos limites fronteiriços de Estrasburgo.

Adquirida para sediar um escritório de advocacia, nunca foi restaurada desde que a família do reitor Martins Filho deixou o local, na década de 1980.

O mecenato privado e alguns governos de bom alvitre — aos quais se atribuem obras relevantes de preservação da memória de Fortaleza — poderiam ter-se ocupado da “requalificação” (palavra da moda entre arquitetos e urbanistas) deste magnífico imóvel e de tantos outros esquecidos sob a poeira do tempo.

Ainda é tempo de salvar essa relíquia, perdida entre o casario em decomposição daquela parte da cidade.

Área urbana caída no esquecimento, o entorno da Praça Coração de Jesus conheceu dias melhores. Hoje, imóveis em franco estado de desgaste resistem ao abandono dos poderes públicos — menos do IPTU, imposto que cobra, mas não devolve em boas obras o que arrecada dos moradores e proprietários. Em valor venal, os poucos imóveis da área nada representam de significativo. Tomaram o destino imposto pelo abandono das zonas urbanas centrais das grandes cidades.

Casa de Antônio Martins Filho, no Centro de Fortaleza, em imagem recente captada no Google Maps.

À falta do prestígio de que um dia desfrutou, quando “inventou” e criou uma universidade no Ceará, Martins Filho não recebeu da cidade à qual ofereceu sua instituição mais importante — graças à sua tenacidade — sequer um beco ou rua de arrabalde como homenagem de despedida. Salvo o “elevado”, com uma inscrição provisória que lembra, quase a apagar-se, o nome de Martins Filho.

Sem vereadores e políticos, ninguém chega a nome de avenida ou praça em Fortaleza.

Dos milhares de patronos transformados em placas de logradouros nesta cidade de Nossa Senhora da Assunção, muitos são totalmente desconhecidos — personalidades inéditas, ignoradas por suas obras e intenções.

Publicados esses registros em um guia da cidade, trariam constrangimento a qualquer historiador de respeito no esforço honesto para identificá-los.

Os cearenses, em sua própria terra, dividem-se em duas categorias distintas: os esquecidos — aqueles que simplesmente não são lembrados — e os “deslembrados”, os que foram intencionalmente esquecidos.

Ainda não descobri a qual ramo pertence Antônio Martins Filho, na partilha dos quinhões de glória repartidos pelo Ceará entre os seus filhos.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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