Consulados cearenses em Sampa; Por João de Paula

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Por João de Paula,

De Maranguape

Bem-vindo à Paulicéia, caboclo.

Foi o que me disse o Bergson, abrindo um sorriso largo e os braços compridos para um abraço apertado e sem pressa quando, na segunda quinzena de dezembro de 1969, cheguei de Curitiba após um ano no Presídio do Ahú. Depois de algumas horas de conversa em um café do centro, atualizando as notícias e matando as saudades, ele me levou a um lugar que uma irmã da Ruth, a Neuma — mestranda no Curso de Letras da USP — havia conseguido para eu me hospedar por alguns dias.

Era um apartamento no Butantã, onde morava com um casal de amigos dela: a Maninha e o Eliomar — professor de Física da UFC, que fazia doutorado na USP. Naquela espécie de consulado, os dois acolhiam solidariamente universitários cearenses necessitados de abrigo, fosse para estudar ou para escapar dos agentes da ditadura.

Tempos depois, conheci um consulado semelhante, que reunia cearenses ligados à música, passantes ou residentes em São Paulo: era o apartamento da Téti e do Rodger. Quem me deu a dica deste outro serviço consular cearense foi o Belchior, que tinha sido meu colega de turma no Colégio Sobralense — onde nunca o vi tirar uma nota que não fosse 10 — e contemporâneo na Faculdade de Medicina, três anos atrás de mim, devido a uma temporada que ele passara em um mosteiro.

Eu o encontrara por acaso em uma viagem de ônibus do Rio para São Paulo. O Belchior morava em um apartamento no mesmo andar da Téti e do Rodger, em um prédio da Rua Oscar Freire, no bairro de Pinheiros. Numa das visitas furtivas que fiz àquele recanto acolhedor, a Téti pediu-me para examinar um dos filhos que estava com febre. Felizmente, meus parcos conhecimentos de quintanista de Medicina foram suficientes para diagnosticar uma daquelas viroses banais da primeira infância, que não requerem mais que boa hidratação e algum antipirético.

Aquele bebezinho febril é hoje o Doutor Pedro Rogério: professor da UFC, pesquisador da MPB, excepcional conhecedor de música na teoria e na prática — pois ensina, compõe, toca, canta e é parceiro musical do pai em lindas canções.

Mesmo cercado de afeto e cuidados, minha estadia no apartamento da Maninha e do Eliomar teve que ser curta, devido ao grande trânsito de pessoas, o que colocava em risco minha segurança e, em consequência, a de todos que ali residiam. Dali fui levado pelo Bergson a um encontro com o Genoíno, que me convidou para morar com ele em um apartamento que dividia com o Hélio Nóbrega.

O Hélio era um estudante de Engenharia da UFC, que havia sido preso junto com a Nadja Oliveira, estudante de Pedagogia, em uma manifestação em Fortaleza pela libertação dos participantes do Congresso da UNE em Ibiúna. Os dois foram soltos, mas depois condenados à revelia e tiveram que viver clandestinamente em São Paulo.

O Genoíno, que me substituíra na UNE porque eu estava preso quando fui eleito, foi quem me reintroduziu no movimento estudantil. Ele colocou-me a par da difícil situação em que se encontrava o movimento em todo o país por conta do recrudescimento da repressão após a decretação do AI-5 e me informou dos desfalques na diretoria da UNE, que começaram pela prisão e tortura do Jean Marc, o presidente, mantido em um presídio da Marinha desde setembro daquele ano.

Fiquei triste por não encontrar em São Paulo uma amiga muito querida, a paulistana Helenira Rezende, eleita comigo para a diretoria da UNE. Naquele momento, ela estava atuando em Salvador e Fortaleza. A Helenira também tinha prisão preventiva decretada por participação no Congresso de Ibiúna e, como eu, fora presa no início do Congresso Regional do Paraná, mas, diferentemente de mim, conseguira escapar daquela arapuca.

Foi o Genoíno quem organizou minha primeira atividade ligada à UNE, levando-me a uma reunião na sede do CAOC — Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, da Faculdade de Medicina da USP — que se vê na foto acima. Percebia-se ali que ainda havia disposição de luta por parte das lideranças estudantis, mas que houvera uma grande redução nas condições de mobilização para ações de protesto público.

A ditadura desencadeara uma nova onda de fechamento de entidades estudantis, prendera muitos de seus dirigentes e proibira mais de duas centenas de líderes de se matricularem em suas faculdades por meio do Decreto-Lei 477. A repressão desenfreada desfalcava as fileiras dos que lutavam contra a ditadura e causava temor entre os que não eram diretamente atingidos, tornando tudo muito difícil para a resistência ao arbítrio.

O clima de apreensão, no entanto, não nos imobilizava, nem tirava nossa alegria de viver. Resistíamos como podíamos e aproveitávamos as poucas oportunidades que surgiam para desfrutar alguns momentos de prazer. Foi assim que, desconsiderando as mais elementares regras de segurança, Genoíno, Lourdinha (sua então namorada), o Hélio, a Ruth e eu fomos passar um fim de semana na Baixada Santista.

A Ruth e eu tínhamos namorado quando éramos colegas de diretoria no DCE da UFC e havíamos reatado o namoro quando nos encontramos em São Paulo, onde ela passara a viver após sua fuga da prisão em Fortaleza. Foi a Ruth quem teve a ideia e tomou as providências para nos hospedarmos em Santos, no apartamento da Zimar, que fora casada com seu irmão, Álvaro Lins, então deputado federal pelo MDB. Foram dois dias inesquecíveis, pelo calor da recepção que tivemos e pela oportunidade de matar a saudade de um banho de mar.

A teimosia em não deixar a repressão nos roubar a vida manifestou-se também quando o Genoíno, o Hélio e eu, vendo uma multidão passar na rua do nosso prédio comemorando a vitória da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970, resolvemos nos meter no meio dela e seguir para o Vale do Anhangabaú berrando: é tricampeão, é tricampeão, é tricampeão!

O período de convivência com o Genoíno em São Paulo foi curto. Certo dia de julho de 1970, ele despediu-se de mim dizendo que aceitara um convite da direção do PCdoB para travar a luta contra a ditadura no campo. Pouco antes, o Bergson dissera-me a mesma coisa. Nenhum dos dois me contou para onde iam — e nem era conveniente dizer, por razões de segurança.

Não muito tempo depois, por meio do Ozeas Duarte — ex-estudante de Direito da UFC e militante destacado do movimento estudantil do Ceará que se tornara dirigente do PCdoB — recebi um convite semelhante. Não aceitei, respondendo que já passara quase metade do meu mandato de diretor da UNE na prisão e que meu compromisso naquele momento era concluí-lo.

Depois da ida do Genoíno para o campo, fiquei sem conexão com a diretoria da UNE, que se via obrigada a atuar nas mais severas condições de clandestinidade. Os contatos que eu tinha com as lideranças do movimento estudantil paulista, construídos no período em que eu participava ali de atividades da UNE como presidente do DCE da UFC, também tinham sido desfeitos. Quem não estava preso ou exilado, estava na clandestinidade. Os centros de efervescência do movimento estudantil paulistano em 1968, como a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras na Rua Maria Antônia, o CRUSP — Centro Residencial da USP — e as faculdades mais ativas da PUC pareciam sitiados, sob constante e feroz vigilância policial.

Este era o cenário em São Paulo quando o Ozeas, em nome da direção do PCdoB, convidou-me pela segunda vez para deslocar-me para o campo. Embora, por diversas circunstâncias, não tivesse sido formalizada minha entrada na diretoria da UNE, considerei haver cumprido meu compromisso como diretor eleito da entidade, honrando a confiança dos que me elegeram. Lembrando-me da minha mãe — mulher de poucas letras e muita sabedoria — de quem ouvi muitas vezes a frase: “quem fez o que podia fazer, fez tudo”, aceitei então aquele convite. O desdobramento desta decisão é assunto para outra historieta.

João de Paula Monteiro Ferreira, 79 anos, ex-presidente do DCE da UFC, ex-diretor da UNE, médico especialista em psicoterapia e psicologia organizacional, formado pela Medizinische Fakultæt der Universitæt zu Kœln, República Federal da Alemanha.

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