O perdão que mata; Por Walter Pinto Filho

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Quando a compaixão ignora a natureza do mal, a porta se escancara. O que vem depois quase sempre é tragédia. Uma advertência que Thomas Hobbes compreenderia bem.

O episódio ocorrido no estado do Arkansas, nos EUA, não é apenas um caso policial. É uma lição moral. Uma daquelas histórias que desmontam, peça por peça, a ingenuidade contemporânea de acreditar que o mal se dissolve com boas intenções.

Em 1996, Travis Lewis, então com 16 anos, invadiu a histórica Snowden House e assassinou duas pessoas: Sally Snowden McKay e Lee Baker. Uma brutalidade perpetrada por um jovem monstro. Lewis foi condenado e passou cerca de vinte e três anos na prisão. A sua menoridade ajudou na dosimetria da pena de 28 anos, mas não foi bastante para aprisionar a alma do malfeitor.

A história poderia terminar aí — como terminam tantas histórias de sangue: com a justiça humana tentando, ao menos, impor um limite ao mal. Infelizmente não terminou. Uma oportunidade foi dada ao sentenciado, a liberdade condicional ofertada em 2018. O pior estaria por vir.

A filha de uma das vítimas, Martha McKay, decidiu fazer aquilo que muitos celebram como gesto elevado: perdoar o assassino de sua própria mãe. Visitou-o na prisão diversas vezes. Acreditou em sua redenção. Quando ele saiu da cadeia, foi além — ofereceu-lhe trabalho justamente na propriedade onde os crimes haviam ocorrido, o palco em que o sangue da família fora derramado.

Em março de 2020, Travis Lewis voltou à mesma casa e matou Martha McKay a facadas. O ciclo se fechou no mesmo cenário. O assassino fugiu, tentou escapar da ação policial e terminou morto por afogamento no lago da residência das vítimas. A tragédia é dilacerante, mas a lição é simples: há males que não pedem compreensão — pedem contenção.

O discurso moderno transformou o perdão em virtude universal. Perdoar virou sinal de grandeza moral; não perdoar passou a ser visto como fraqueza de espírito. Mas essa visão ignora uma verdade antiga e incômoda: o mal existe, circula entre nós e, quando se manifesta em sua forma mais ferina, precisa ser contido antes que volte a cuspir violência.

Nem todo assassino é um homem arrependido. Nem todo criminoso busca redenção. Alguns apenas aguardam nova oportunidade. A própria Escritura adverte com brutal franqueza: “Como o cão volta ao seu vômito, assim o tolo repete a sua loucura”(Provérbios 26:11).

O perdão pode ser um ato espiritual. Mas quando ele se converte em política moral diante de crimes brutais, torna-se outra coisa: imprudência travestida de virtude.

A morte de Martha McKay é uma prova amarga disso. Uma mulher que acreditou na redenção humana e pagou com a própria vida.O assassino havia dado todos os sinais de quem era.

O consolo final não existe nesta violênciaanunciada: a terceira morte poderia ter sido evitada. O estado do Arkansas possui pena capital e, em 2017, executou oito facínoras em apenas onze dias — lamentavelmente, Travis Lewis não estava entre eles.

*Walter Pinto Filho é Promotor nade Justiça em Fortaleza, autor dos livros CINEMA – A Lâmina que Corta e O Caso Cesare Battisti – A Confissão do Terrorista. www.filmesparasempre.com.br

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