Ilhas, prisão e livros; Por Angela Barros Leal

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Tempos atrás, constava no repertório dos jornalistas da área cultural perguntas quase obrigatórias a serem feitas a figuras literárias entrevistadas. Isso no tempo em que se faziam perguntas, e não “colocações”, no tempo em que as pessoas liam livros, e desconheciam telas. Uma das questões mais populares proposta aos autores era: Que livros você levaria para uma ilha deserta.

A pergunta fazia bailar diante dos olhos dos leitores a imagem clichê de uma vastidão oceânica de puro azul, abraçando uma ilha minúscula, um círculo de areia branca ao centro do qual erguia-se um coqueiro espigado, palmas embaladas pelo vento. Debaixo desse coqueiro imaginava-se o entrevistado, acomodado em um banco de areia, lendo placidamente sua pilha de livros escolhidos a dedo enquanto aguardava (ou não) a chegada de um barco salvador.

As figuras literárias listavam suas escolhas. A Bíblia encabeçava as listas. A Enciclopédia Britânica era citada pelos que suspeitavam de uma longa estadia. Eram citados os clássicos de Ovídio e de Platão, as obras de Shakespeare e de Charles Dickens, a coletânea completa de Machado de Assis e de Eça de Queiroz, para os cultores da literatura em língua portuguesa. Os livros para os quais não havia tempo suficiente para a leitura na faina do dia a dia.

De certa forma, uma ilha se iguala a uma prisão – sendo esta cercada de muros por todos os lados, e com exposição ao sol bem mais controlada.

Prisão. Ilha. Livros. Um encadeado de pensamentos voejando na minha mente ociosa, surgidos pela leitura de intrigante notícia de um jornal digital, em matéria assinada pela jornalista Mirelle Pinheiro: o chamado “kit preso”, entregue no momento da reclusão aos apenados das unidades de segurança máxima.

Talvez a existência do kit seja do conhecimento de todos, e a culpa seja minha pela desinformação sobre a existência do pacote, formado por material trivial, artigos de necessidade diária, como produtos de higiene pessoal – surpreendentemente enriquecido pela nobre inclusão de livros.

O kit em questão, informa a jornalista, depositado nas mãos de um dos figurões que deram agora para fazer uso dele, inclui três livros: Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva; Tempestade de Ônix, de Rebecca Yarros; e Stairway to Heaven: Led Zeppelin sem censura, escrito por Richard Cole. Um livro puramente brasileiro e duas traduções.

A curiosidade faz cócegas no meu raciocínio. Qual terá sido o critério para seleção dessas obras literárias, é a primeira questão que aflora. Qual a razão para terem sido selecionadas essas, e não outras. Teria sido realizada uma enquete entre os prisioneiros, uma entrevista como as que os jornalistas de antigamente, acima citados, faziam às figuras literárias? Seria apenas uma tentativa aleatória de acertar em publicações para gostos diversificados?

Ainda estou aqui é fartamente reconhecido, se não pelo livro em si, pelo premiado filme extraído de suas 270 páginas. Tempestade de ônix é o volume três de uma trilogia de pura fantasia, misturando guerras, dragões e segredos obscuros, ao longo de 1.700 páginas. Stairway to Heaven: Led Zeppelin sem censura, tem o manager da banda de rock Led Zeppelin contando, em 500 páginas, a história desse grupo, desde os primeiros acordes.

Por mais que eu mexa essas três peças, não consigo descobrir a lógica por detrás da seleção – exceto o demorado tempo exigido para suas leituras. Não consigo também formar um perfil de leitor a partir delas, tamanha a disparidade temática.

No entanto, não me cabe comentar a qualidade das obras indicadas. Com certeza, todas elas são (ou devem ser) capazes de distanciar os leitores da deprimente condição em que se encontram, seja na cela, seja na ilha.

Apesar de ninguém haver me perguntado, ainda acho que na minha ilha deserta, sentada em um banco de areia, à sombra do coqueiro solitário, aguardando a silhueta do barco salvador, eu bem que ia querer mais opções de leitura…


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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