
Quando a gente para de viver para os outros e começa a viver para si
Por Gera Teixeira
Dizem que a juventude é o auge da vida. Talvez seja o auge da força, da pressa, da ilusão de que ainda existe tempo para tudo. Durante muitos anos, a gente corre atrás do que esperam de nós. Aprende cedo a agradar, a competir, a aparentar firmeza mesmo quando o coração já anda cansado por dentro. Há quem passe décadas acumulando bens, títulos, compromissos e o peso silencioso das aparências, sem nunca ter encontrado verdadeiramente a si mesmo.
O tempo vai passando devagar por fora e depressa por dentro.
Até que alguma coisa muda. Nem sempre por sabedoria. Às vezes, pelo cansaço. Outras vezes, pela perda de alguém, pela decepção com certas vaidades, pela percepção silenciosa de que quase tudo aquilo que parecia indispensável era apenas ruído. E então começa uma transformação discreta.
A pessoa já não sente tanta necessidade de convencer ninguém. O olhar desacelera. As conversas ficam menores, mais demoradas, mais verdadeiras. Certos silêncios deixam de incomodar. Há menos interesse em vencer e mais vontade de preservar alguma paz interior.
É nessa fase que muitos começam a enxergar o que antes passava rápido demais. O café sem pressa. O abraço de um neto. A lembrança de uma cozinha antiga. O vento entrando pela janela no fim da tarde. Instantes que, de repente, passam a valer mais do que qualquer conquista.
Curiosamente, é também nessa fase que a solidão começa a ter outro sabor.
Maturidade talvez seja isso. Não envelhecer com mais dignidade, mas retirar devagar aquilo que já não cabe mais na alma, sem muito drama, sem anúncio, sem despedidas solenes.
A vida começa a fazer sentido quando sobra menos aparência e mais verdade. Não porque tudo esteja resolvido. Mas porque a necessidade de parecer invencível vai ficando, ela própria, cansada.
Chega uma hora em que a alma não quer mais espetáculo.
Quer apenas estar.







