
Por Paulo Elpidio de Menezes Neto
A revitalização do Estoril e de alguns imóveis em abandono na praia de Iracema sinalizou para a restauração de um lugar icônico desta nossa cidade de Fortaleza.
Não durou o bastante antes do abandono a que foi relegado o casario das velhas colônias de pesca. Até mesmo o projeto ambicioso do Aquário, cujos esqueletos milionários jazem como patrimônio mudo da UFC, parecem condenados, à espera de serem utilizados.
Certas parcerias não atendem bem ao perfil empreendedor do Estado. Investimentos em infraestrutura poderiam não ser um deles. Dependem, entretanto, dos dividendos de prestígio e de recompensas por serviços relevantes prestados. Esta pode ter sido a causa do pouco entusiasmo despertado pela recuperação da praia de Iracema nos governantes e até mesmo nos meios de comunicação e entre intelectuais.
Do que parecia ser desejo compartilhado de muitos para ver a velha praia dos peixes remoçada, com os enfeites trazidos pelos novos frequentadores, restaram algumas iniciativas e novidades de pouquíssima duração.
Muitos contemporâneos, como fui em minha adolescência, moradores das ruas que emprestavam cor e animação ao entorno da igrejinha de São Pedro, assim carinhosamente referida, acham que a restauração da praia de Iracema, bairro com registro urbano, melhor se realizaria sem o encosto do governo, fora do alcance das tenazes do Estado, livre das posturas municipais e das tentações eleitorais, se assim fosse possível.
A Sereia de Sérvulo Esmeraldo — “la femme bâteau” — no pontão da Ponte dos Ingleses, sobre o mar é a silhueta solitária de obra recente, ponto de encontro e recolhimento dos cearenses.
Empresários, moradores de uma cordial vizinhança, pequenos comerciantes, animadores culturais e gente do negócio imobiliário, sem faltar a prestimosidade alegre da boemia — é dessa gente a que se haveria de recorrer para reerguer a praia de Iracema que trazemos, viva, das nossas lembranças. Sem politicos ou agentes públicos por perto.
Habitar o lugar seria tarefa para moradores contumazes, sua prática e obrigação. A animação ficaria por conta dos profissionais do ramo, na copa e na cozinha das biroscas, nas cordas e no volume das caixas sonoras.
O mar, as linhas do horizonte, as ruas a lembrar as populações que ali nasceram e viveram, enquadrariam o espaço reconquistado ao esquecimento e ao abandono.
Cariris, Ararius, Pacajus, Tabajaras, a faltar, apenas, o trilho por onde corria preguiçoso o bonde de uma infância distante. A Torre do Rádio, o poço da Draga, as colônias de pescadores, as velas abertas ao fresco vento da tarde, ainda molhadas, a chegada das jangadas ao pôr do sol, no regresso de pescarias corajosas, samburás expostos diante da meninada inquieta, assumiam os contornos em contraste sépia do entardecer.
As velas do Mucuripe, da Volta da Jurema e da praia de Iracema săo uma imagem desbotada das. lembranças vencidas pelo tempo. Com elas, o apagar de mágoas e esperanças e das alegrias passageiras…








