Chairman do BTG Pactual diz que juros de 14% são “muito hostis” até para os bancos e coloca agenda fiscal no centro da eleição de 2026

O banqueiro André Esteves colocou a dívida pública no centro da agenda econômica do próximo governo e afirmou que o Brasil tem uma “oportunidade de ouro” para levar os juros a um patamar considerado “civilizado”. Para ele, a Selic, hoje em 14% ao ano, poderia chegar a 7%.
A declaração foi feita nesta segunda-feira (31), durante a abertura do BTG Macro Day, e publicada pelo Valor Econômico.
A fala chama atenção por vir de um dos principais banqueiros do país.
Esteves rejeitou a ideia de que juros elevados sejam necessariamente positivos para os bancos. Segundo ele, o atual nível da taxa básica cria um ambiente “muito hostil” para empresas, indústria, varejo, empreendedorismo e também para o sistema financeiro.
O problema está na dívida
Na avaliação de Esteves, o Brasil apresenta fundamentos relativamente sólidos em diversas áreas, mas tem um grande desequilíbrio: a velocidade de crescimento da dívida pública.
“O crescimento da dívida pública no Brasil está muito alto, muito forte, muito rápido.”
Para o banqueiro, o tema precisa ser enfrentado como uma questão técnica e institucional, não ideológica.
A lógica é direta: uma trajetória fiscal mais sustentável reduziria o prêmio de risco, abriria espaço para juros menores e diminuiria o custo de capital para toda a economia.
A Selic de 7%, portanto, não seria resultado de uma simples decisão do Banco Central. Seria consequência de uma mudança na percepção de risco do Brasil.
O recado para o próximo governo
Esteves vê o ciclo eleitoral como uma oportunidade para o país construir dois legados: fortalecimento institucional e controle da dívida pública.
Em maio, o banqueiro já havia afirmado que três ou quatro medidas de contenção do crescimento dos gastos poderiam levar os juros para a faixa de 7% a 8%, reforçando que não seria necessário um ajuste fiscal de grandes proporções para mudar a trajetória.
Agora, a mensagem ganhou uma formulação ainda mais política: o próximo governo teria a oportunidade de deixar como legado uma economia com juros estruturalmente menores.
“30 vezes qualquer programa social”
Esteves também dimensionou o impacto social que atribui à redução dos juros.
Segundo ele, levar a taxa para um patamar de um dígito de forma sustentável representaria uma transformação especialmente importante para a população de menor renda. O banqueiro chegou a afirmar que o benefício seria equivalente a “30 vezes qualquer programa social”.
A argumentação é que juros menores não beneficiariam apenas tomadores de crédito. O efeito alcançaria empresas, investimentos, consumo, mercado imobiliário e o próprio custo de financiamento do Estado.
Instituições entram na conta
Além da agenda fiscal, Esteves apontou o fortalecimento institucional como outro desafio para o próximo governo.
O chairman do BTG afirmou que o Brasil apresentou avanços recentes na defesa das instituições, mas alertou para a infiltração do crime organizado e para o avanço da informalidade em mercados regulados.
“A batalha foi vencida, mas a guerra continua.”
Por que importa
A declaração de Esteves dá um número ao debate que deve atravessar a eleição presidencial: 7%.
Mais importante, porém, é a condição colocada pelo banqueiro para chegar lá.
O mercado financeiro não está pedindo apenas corte de juros. Está cobrando uma mudança na trajetória da dívida pública.
E o fato de essa cobrança partir do comando de um dos maiores bancos de investimento do país reforça a dimensão econômica e política da discussão.
Em resumo: para Esteves, o Brasil não está condenado a juros de dois dígitos. Mas, para sair deles, terá de resolver a conta fiscal.






