Por que importa: Augusto Cury deixou de ser apenas um nome alternativo na corrida presidencial. O desempenho recente nas pesquisas começa a produzir um efeito político importante: os institutos passaram a testar até onde pode ir a candidatura que corre por fora da raia tradicional da eleição presidencial.
A nova pesquisa Quaest, que será divulgada nesta quarta-feira (2), traz pela primeira vez nesta campanha uma simulação de segundo turno entre o presidente Lula e Cury. O levantamento, claro, também testará confrontos de Lula com outros nomes que aparecem no tabuleiro presidencial, como Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema.
A pesquisa começou a ser realizada no domingo (30) e segue até terça-feira (1º), com 2.004 entrevistas em todo o país. É a décima pesquisa presidencial da Quaest em 2026 e a segunda rodada da série eleitoral encomendada pelo grupo Globo, envolvendo O Globo e TV Globo.
O número que acendeu a luz
O movimento de Cury ganhou força na pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (31). Em apenas uma semana, o candidato do Avante passou de 2% para 11% das intenções de voto. É um salto grande demais para ser tratado apenas como oscilação estatística ou ruído de pesquisa. É justamente esse tipo de movimento que leva os institutos a ampliar a testagem de um candidato.
A Quaest agora quer saber algo mais sofisticado do que simplesmente medir o tamanho de Cury no primeiro turno: o que aconteceria se ele chegasse ao segundo?
A terceira via ganha um rosto?
Cury entrou na eleição carregando uma marca pouco convencional para o ambiente polarizado brasileiro. Escritor de autoajuda, médico psiquiatra e palestrante, ele tenta construir uma candidatura fora do eixo tradicional esquerda x direita. Seu discurso é resumido pela própria definição: “uma mente capitalista e um coração social”.
À BBC, Cury afirmou defender um Estado “enxuto e eficiente”, mas também uma agenda social centrada em direitos humanos, educação e proteção das mulheres. A estratégia é facilmente perceptível e vai na mesma linha das tentativas presidenciais de Ciro Gomes nas últimas disputas: ocupar o espaço de quem rejeita a polarização entre Lula e o bolsonarismo, sem necessariamente se identificar com a direita tradicional.
Na sabatina desta sexta-feira (28), Cury voltou a sustentar que as dores sociais não têm ideologia. É aí que sua candidatura tenta encontrar uma avenida eleitoral.
Do palanque ao radar
A entrada de Cury nos cenários de segundo turno não significa que ele esteja, neste momento, perto de uma vaga no segundo turno. Mas significa que os institutos passaram a considerar relevante medir essa hipótese. Essa diferença é importante. Até pouco tempo, Cury aparecia como um personagem periférico da disputa. Agora, o crescimento nas pesquisas começa a transformar a pergunta.
Antes era:
“Quanto Cury tem?”
Agora passa a ser:
“O que Cury faria se tivesse votos suficientes para chegar ao segundo turno?”
É uma mudança de patamar.
O teste de fogo
O confronto com Lula será particularmente revelador. Uma candidatura construída como terceira via precisa provar que consegue transformar rejeição à polarização em voto efetivo contra um dos polos. Se Cury tiver desempenho competitivo contra Lula, ainda que distante, os números poderão alimentar uma nova narrativa eleitoral: a de que existe espaço para uma candidatura que não queira escolher entre petismo e bolsonarismo.
Se, ao contrário, a simulação mostrar forte desvantagem, o efeito político será outro: Cury pode estar crescendo no primeiro turno justamente por captar o eleitorado que procura uma alternativa, mas ainda sem capacidade de formar uma maioria nacional.
A eleição começa a testar os “forasteiros”
A ascensão de Cury também acontece em um momento em que a disputa presidencial começa a abrir espaço para nomes que, até recentemente, estavam fora do centro do jogo. É o fenômeno do candidato que corre por fora da raia. Ele não parte da estrutura tradicional dos grandes partidos, não tem a máquina eleitoral dos principais adversários e não pertence aos dois grandes polos que dominaram a política brasileira nos últimos anos.
Mas uma campanha presidencial pode mudar rapidamente quando um candidato consegue combinar visibilidade, identificação e crescimento consistente nas pesquisas.
Cury começa a entrar nessa zona.
E agora?
A pesquisa Quaest desta quarta-feira será importante não apenas para medir Cury, mas para verificar se o salto captado pela BTG/Nexus é um episódio isolado ou parte de uma tendência.
Se o número de Cury aparecer novamente em trajetória ascendente, a inclusão de seu nome em uma simulação de segundo turno poderá ganhar outro significado. O personagem que corria por fora da raia começa a obrigar a corrida a abrir uma nova raia. E, em eleição presidencial, quando os institutos começam a perguntar pelo segundo turno de um candidato, é sinal de que ele já deixou de ser apenas uma nota de rodapé.
O pensamento de Augusto Cury, em resumo
Cury tenta construir uma candidatura de centro, fora da polarização. Seu pensamento combina liberalismo na economia com uma agenda social e humanitária.
- Economia: defende capitalismo, empreendedorismo, meritocracia, liberdade de expressão e um Estado menor, mais eficiente e menos burocrático.
- Social: coloca o ser humano no centro, com atenção especial aos vulneráveis e à saúde mental, defendendo o fortalecimento do atendimento psicológico no SUS.
- Educação: aposta na educação socioemocional como instrumento para melhorar a formação dos jovens e enfrentar problemas como ansiedade, violência e intolerância.
- Política: rejeita a lógica de que o eleitor precisa escolher entre esquerda e direita. Tenta se apresentar como uma terceira via, capaz de combinar eficiência econômica com sensibilidade social.
- Instituições: defende mudanças no sistema político e no Judiciário, incluindo a discussão sobre o semipresidencialismo e alterações na estrutura do STF para buscar maior equilíbrio entre os Poderes.
Em uma frase: Cury procura ocupar o espaço de quem quer “capitalismo com responsabilidade social”, menos Estado na economia, mais cuidado com as pessoas e uma política que fuja da guerra entre os extremos.
A síntese eleitoral: liberal na economia, social na proteção das pessoas e centrista na política.







