A Advocacia x julgamento midiático, por Leandro Vasques

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Leandro Vasques é advogado criminal, professor do Curso de Pos Graduação em Direito Penal da UNIFOR e foi Conselheiro da Escola Nacional de Advocacia- ENA

Por Leandro Vasques

Quanto mais odiosa a acusação, mais devem se precaver os juízes contra os acusadores, sem perder de vista a presunção de inocência enquanto não liquidada a prova e reconhecido o delito.”, com essa máxima de Rui Barbosa descortino essas linhas para falar do desafio de ser Advogado Criminal e homenagear Márcio Thomas Bastos que, em 2014, foi compor a constelação dos que se devotaram a vestir e honrar a beca da advocacia, bem assim aplaudir a valorosa classe advocatícia que celebra sua data aos 11 de agosto.

A advocacia é, certamente, uma das profissões mais incompreendidas na sociedade, principalmente quando se tratam de causas impopulares, isto é, quando a opinião pública realiza um julgamento sumário da situação e condena aqueles acusados de algum malfeito de larga repercussão. Não é incomum o ritual de se destruir a reputação dos suspeitos, encarcerando-os primeiro para depois proceder à investigação.

A liturgia da execração pública se inicia quando autoridades se precipitam e, junto com a mídia, colocam o suspeito no pelourinho público. Pronto, o picadeiro foi armado. Agora é disseminar interpretações e apostar no bordão de que “uma mentira repetida mil vezes transforma-se numa verdade”.

Como advogado criminal com 24 anos de atuação posso testemunhar aqui dezenas e dezenas que casos em que pessoas sofreram linchamento moral prévio, pre-processualmente falando, e, ao final, sequer foram denunciadas pelo Ministério Público, ou findaram por ser absolvidas pelo juiz da causa. Mas e o rótulo de ter sido preso temporariamente, quem tira? Alguém dirá: “o tempo”.

Ledo engano.

A pessoa que sofre o trauma do aprisionamento jamais será a mesma. Elas se apequenam, se sentem amputadas de dignidade, passam a conviver com fantasmas. Insônias, depressão e um arsenal de medicamentos compõe seu cardápio diário. Existem determinados casos midiáticos onde se rasgam biografias sem cerimônia. E é exatamente neste cenário que a figura do advogado se faz imprescindível. Nesses casos, o escritório de advocacia torna-se a última trincheira do sagrado exercício do direito de defesa daqueles que já foram considerados culpados antes mesmos de serem processados.

Noutros casos, ainda que a tese de defesa do advogado seja uma condenação justa e dentro das fronteiras legais, ainda assim o profissional advogado é mal compreendido, e é justamente em razão disso que em determinadas causas impopulares inflamadas pela “mass mídia” que cabe a reflexão feita pelo juiz francês Antoine Garapon em sua obra “O juiz e a democracia: o guardião das promessas.”, Rio de Janeiro: Revan, 1999, pp. 68/69, quando escreveu:

O direito começa aí a ser esquecido, na transgressão da regra em nome de uma pretensa moral superior. A justiça passa a ser feita em praça pública, fora da mediação da regra e de um espaço adequado à discussão, quer dizer, sem o auxílio de um profissional sensível e intelectual. A força da regra no direito sai duplamente enfraquecida: na sua característica coercitiva e no princípio ético que encerra.” E adverte ainda: “Esta alquimia duvidosa entre justiça e mídia assinala uma profunda desordem da democracia. A mídia – sobretudo a televisão – desmonta a própria base da instituição judiciária, abalando a organização ritual do processo, seu iniciar através do próprio procedimento. Ela pretende oferecer uma representação mais fiel da realidade do que as ilusões processuais. Trata-se, portanto, de uma concorrência para a realização da democracia. A mídia desperta a ilusão da democracia direta, que dizer, o sonho de um acesso à verdade, livre de qualquer mediação.”

A par disso, também preocupado com a influência da mídia nos julgamentos, o jornalista Joaquim Falcão asseverou em seu livro “A imprensa e a justiça”. O Globo. Rio de Janeiro, 6 de julho, 1993, p. 7 : “Ser o que não se é, é errado. Imprensa não é Justiça. Esta relação é um remendo. Um desvio institucional. Repórter não é juiz. Nem editor é desembargador. E quando, por acaso, acreditam ser, transformam a dignidade da informação na arrogância da autoridade que não têm. Não raramente, hoje, alguns jornais, ao divulgarem a denúncia alheia, acusam sem apurar. Processam sem ouvir. Colocam o réu, sem defesa, na prisão da opinião pública. Enfim, condenam sem julgar.”

Prossigo eu.

Só quem esteve com a Espada de Dâmocles sobre a cabeça compreende a importância e a indispensabilidade de um advogado combativo e incansável em sua defesa. Como proferiu o insuperável Rui Barbosa, em sua Oração aos Moços, “onde houver um grão de direito apurável, que o advogado o persiga incansavelmente, pois será a última esperança de liberdade do seu cliente”. Nas lides e lidas diárias, em meio às dificuldades inerentes à profissão, o advogado deve atuar com inquebrantável altivez, sendo combativo sem arrogância e humilde sem subserviência.

Se um dia, caro leitor que avalia estas linhas, você precisar de um advogado, certamente quererá o mais preparado e aguerrido, de modo que faça valer o seu direito à liberdade, por mais que as outras pessoas o julguem imerecido. Viva a advocacia, estandarte das liberdades.

Leia Mais
+ Membros da advocacia cearense assinam artigos comemorativos ao Dia do Advogado, na nova série do Focus.Jor
+ A advocacia disruptiva do século XXI, por Frederico Cortez
+ Os desafios da advocacia na Revolução 4.0, por Leonardo Vasconcelos
+ Advocacia é empresa, por Uinie Caminha

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

M. Dias Branco cresce em volume e fecha semestre com lucro de R$ 275 milhões

Pesquisa Focus Poder/Atlas: Lula é a maior força eleitoral do Ceará; Veja tudo

Pesquisa Focus Poder + Atlasintel para o Senado: diagnóstico em 13 pontos

Guimarães foi o protagonista da articulação que levou Luizianne à compor chapa governista

Ceará consolida elite da educação brasileira no Ideb; Brasil segue sem atingir metas do ensino médio

TRE rejeita tese do relator e mantém Federação União Progressista na chapa de Ciro Gomes

Quaest abre vantagem para Ciro, mas a campanha ainda reserva muitas variáveis

Emandas bilionárias e outros privilégios deve baixar índice de renovação de mandatos federais

Selo do TSE divide institutos; AtlasIntel apoia iniciativa e acende debate sobre precisão das pesquisas

Aval de Lula consolida Cid Gomes como candidato ao Senado e aproxima definição da chapa governista no Ceará

O Duplo Twist Carpado de Mauro Filho

Obtuário: Cid Carvalho, uma voz que atravessou gerações da comunicação e da política cearense

MAIS LIDAS DO DIA

Conta de energia da Enel Ceará terá redução média de 5,87% a partir desta quarta

USP mira talentos do Ceará em movimento que vai desviar para SP cérebros que ficariam na UFC

Quixeramobim projeta aeroporto para acompanhar salto industrial puxado pela Transnordestina

Regulação do diploma de jornalista; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

Camilo e a defesa do lulismo; Por Ricardo Alcântara

Brasil e EUA retomam negociações comerciais após conversa entre Lula e Trump

Uber é processada pelo MPT e pode pagar R$ 321 milhões por programa de assinatura para motoristas

Canadá anuncia tarifas de até 50% sobre produtos dos EUA

STF cria adicional que pode elevar salários de servidores em até 22,5%