A situação eleitoral do presidente Lula no Nordeste há de exigir dele o que ele tem: habilidade política. Lula é um amplo favorito na região. Teria 7 em cada 10 votos válidos em um segundo turno, hoje. Com isso, vive uma ambiguidade, boa para ele: em muitos estados é apoiado por candidatos opostos ou priva da neutralidade de alguns deles.
Bahia, Pernambuco e Ceará são bons casos para observação: Lula apoia Gerônimo, João Campos e Elmano, todos do bloco de centro esquerda, mas não deverá, por força do quadro presumidamente apertado da disputa nacional, se indispor com os adversários deles que o pouparem de crítica e possam ajudá-lo a preservar os votos que tem no Nordeste, seu reinado.
Aqui no Ceará, Ciro Gomes, um crítico impiedoso de Lula, está em estado induzido de amnésia e há muitas semanas sem falar sequer o nome do presidente que já foi, para ele, uma obsessão: tentou desconstruí-lo a patadas de urso que tiveram a força de um coice de calango, seguindo agora, ao pé da letra, o catecismo do marketing eleitoral num esforço de estadualizar os temas em debate na campanha.
A aura farmada de presidenciável, sempre visto nos debates nacionais de grande alcance e nas pages da big mídia, confere a Ciro uma projeção no imaginário popular que tem garantido a ele desde o início um espaço de prestígio no curso da pré-campanha e agora. É, como outros anteriormente não foram, uma ameaça real ao projeto reeleitoral de Elmano de Freitas.
Foi esse conjunto de fatores que levaram o senador Camilo Santana, a maior liderança da centro esquerda no Ceará, a se antecipar ao período turbinado de propaganda de televisão e divulgar uma mensagem em vídeo – elegante nos termos e agressiva no tom – em que destaca declarações anteriores de Ciro Gomes de ofensa frontal à integridade do presidente Lula, e Camilo as cita como exemplos da incoerência que representaria a decisão dos eleitores que votarão em Lula ao votarem também, como muitos ora pretendem, em Ciro para governador.
Camilo não desconhece, claro, o direito do eleitor de votar em candidatos de grupos distintos, e até opostos. O voto no Brasil é self service. O que ele faz na mensagem é um alerta, ao ressaltar que as candidaturas de Lula e Ciro correspondem a projetos diferentes: Lula é o candidato que, eleito em 2022, evitou que este país quedasse ao abismo de uma experiência autoritária de extrema direita, o que é fato, enquanto Ciro preferiu se unir aos bolsonaristas que apoiaram uma tentativa de golpe… e os protagonistas da desonrada tentativa estão presos.
Camilo assume o papel na posição confortável de quem, não sendo personagem da disputa, não precisa se preocupar com um possível aumento de rejeição – um efeito comum sobre quem se escala para o confronto direto. O senador faz, assim, o serviço que Elmano de Freitas, Luizianne Lins e, principalmente, Cid Gomes, como candidatos, não deveriam fazer. A bem da verdade, como já foi dito, nem mesmo a Lula, que também é candidato, esse confronto direto interessa.
No entanto, Camilo Santana tem sido frequentemente atacado por Ciro de maneira virulenta e pessoal. Agora, sua disposição para o embate demonstra a confiança que tem na força acumulada de sua credibilidade popular, num esforço até obrigatório de reação aos ataques sofridos. É sabido: Camilo recuou ao limite para permitir ao governador Elmano uma aliança de força inquestionável. Mas certamente não pretende sair menor dessa campanha e encontrou sua trincheira: a defesa de um lulismo raiz, que não faria concessões aos que até recentemente desejavam o ostracismo como destino para Lula.
Fortes emoções à vista.








