A ruptura da ordem internacional; Por Paulo Elpídio

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“Les apparences de la légalité ont parfois un effet politique supérieur à celui de la legalité, elle même”, Hors Moller – “La Republique de Weimar”, Texto – Le goût de l ‘ histoire, Paris, 2007.

A ruptura da ordem internacional, explicação dada por alguns especialistas ao cenário aberto nestes anos de atribulações geopolíticas, não parece ser um episódio passageiro. Sugere, para o entendimento linear de idiotas como nós, um processo de “desinternacionalização” com o fortalecimento de um “bilateralismo” diplomático ou pela formação de grupos na base de blocos de interesses e de solidariedade militar de defesa mútua.

Os riscos recaem, entretanto, sobre os paises periféricos à governança mundial, as economias e sociedades dependentes, de frágil consistência politica e militar, como de resto, caracterizam as nações que formam a América, dita, Latina, como o Brasil.

A rejeição dos laços de dependência com o império ianque, situação sedutora para a nossa ínfima diplomacia, não explica, muito menos justifica o nosso canhestro e transitório entendimento sobre conceitos relativos, proativos, de um novo ativismo jurídico e constitucional no que resoeira à democracia, soberania e autonomia política.

Paises marcados por um longo processo colonizador, enveredados por um republicanismo oligárquico ancestral — caso dessa colcha de retalhos que cobre o território americano, abaixo do Equador — nós, sulamericanos e brasileiros, somos marcados historicamente por um certo vezo, smos criaturas infensas à ordem, a princípios de autoridade legítima e a qualquer firma de hierarquia, conquanto denominadores comuns e necessários ao funcionamento da democracia e do equilibrio da governabilidade.

Há pessoas incrédulas, sobreviventes de tanto passado mal composto, em alianças improvisadas que veem com temor essa operação “trans” para uma matriz chinesa. Faltam-nos laços culturais sobre os quais construiríamos afinidades sólidas. Do ponto de vista histórico nada nos aproxima, de fato, Brasil e China, por exemplo. Nossos “homo sapiens” nunca se envontraram na marcga darwiniana da Evolução… Da formaçāo étnica, guardamos os traços de universos distintos. Povos guerreiros, ampliaram, no curso de dinastias milenares,o poder e os territórios, sábios e brutais, alheios a certos principios, até hoje desconhecidos, de liberdade. Persiste na modernidade de Xi Jimping o poder absoluto dos mandarins na encarnação dos agentes do Estado e do Partido. A Longa Marcha de Mao Tsé Tung é um retrato apagado da Coluna Prestes. O fato de Lula ter envergado um dólman no riscado maoista, não significa que nossa percepção estética e de grife sejam convergentes. O banhar-se no mar em Santos não faz de um metalúrgico do ABC paulista o Grande Timoneiro do rio Yangtzé…

Como pôde a Europa, esmagada na guerra contra o fascismo, renascer das próprias cinzas? A periferia dos conflitos, na Africa e na América Latina, ao contrário, por sua vez, não conseguiu livrar-se da dependência que lhe foi imposta, econômica e politicamente e reduzida a alianças “protetoras”, com os antigos empórios coloniais, desfeitos, e o consequente dominio da onda [ideological new waves] das novas ideologias.

Amarrados por uma certa índole autoritaria, mal dissimulada, fomos por este lados o território de todas as oligarquias, desembarcadas pelos descobridores do pedaço. A essa subserviência fomo-nos acostumando, que a servilidade pode ser dolorosa, porém traz uma certa seguranca, nos quadros de dependência da servidão voluntária, na quadratura do círculo das lealdades weberianas e das lideranças carismáticas.

Em passado recente, do qual pouca coisa resultou de relevante, “levantes” e “revoluções foram o expediente mais usados no Continente. De todas as revoltas” e golpes de uso imoderado pelos latinos desbravadores do “Novo Mundo”, estabelecidos na praça, pouco restou de significativo historicamente considerando. A não ser, queiramos ou não a Guerra Civil americana, a revolução castrista de sovietização da Ilha e a fórmula jeitosa pela qual o Canadá tornou-se membro do Commonwealth…

O resto, os eventos passados, dos quais não nos orgulhamos por inteiro, foram quarteladas e combates pela apropriação da terra [o espaço vital da pax americana], segundo um visão bem peculiar dos “pilgrims” e do protestantismo fundadores da “América”.

Por que, meio milênio transcorrido, continuamos a representar essa figura trágica de “latinoamericanos”, como na canção de Belchior?

Lá fora, o mundo mudou, a ortodoxia da fé, salvo nas areias do Levante, perdeu força para as ideologias sob roupagem diversa — prostrações “woke” e “queer” e as poderosas tentações autoritárias. Neste cenário, tomados de passado e indiferentes ao futuro, abraçamos as receitas para mudar o mundo. Este admirável mundo novo está para chegar; o sargento Guy Montague já o anunciara a George Orwell…

O aviamento dessas nobres intenções é mágica feita com o pensamento dirigido “para o povo, nada pelo povo”, segundo o modelo soviético da”ditadura do ptoletariado”, a ditadura permanente do partido.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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