
O almoço de Lula com Hugo Motta e Davi Alcolumbre nesta quarta-feira (26) teve um significado que vai além da negociação de uma pauta legislativa. O presidente conseguiu trazer os comandos da Câmara e do Senado para uma agenda de forte apelo eleitoral — e, com isso, reduzir o risco de chegar à campanha apenas com promessas.
No cardápio, duas propostas particularmente sensíveis ao eleitor: o fim da escala 6×1 e o fim da cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, a chamada “taxa das blusinhas”. As duas avançaram justamente no momento em que o calendário eleitoral começa a apertar. A MP das blusinhas perde validade em 8 de setembro; a PEC da 6×1 será analisada pela CCJ do Senado na próxima semana.
O ativo eleitoral
A 6×1 é especialmente poderosa. Pesquisa Real Time Big Data mostra 71% de apoio entre os brasileiros. Mais importante: a aprovação não se restringe ao eleitorado de Lula. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, por exemplo, 59% também apoiam o fim da escala. É justamente aí que está a força política da pauta.
Lula pode apresentá-la como uma conquista do seu campo político, mas a oposição tem dificuldade para combatê-la frontalmente sem se expor diante de uma maioria favorável. Na Câmara, a PEC já passou por 472 votos. No Senado, o relator Omar Aziz trabalha para apresentar seu parecer nesta quinta-feira (27), com votação na CCJ prevista para 3 de setembro.
A “taxa das blusinhas” funciona por outra via. É uma pauta de bolso, associada ao preço de produtos comprados pela internet e com potencial de comunicação direta com consumidores de renda mais baixa. O governo, segundo o Poder360, vê nela uma oportunidade para reduzir desgaste justamente entre as classes C e D.
Lula ganhou uma fotografia
O aspecto simbólico do encontro talvez seja tão importante quanto o resultado legislativo. Lula apareceu ao lado dos dois homens que controlam a pauta do Congresso e ouviu de Alcolumbre uma declaração explícita de que a relação entre Executivo e Legislativo vem produzindo “frutos positivos”. O presidente, por sua vez, exaltou a disposição dos dois em pautar matérias de interesse do país.
É uma imagem eleitoralmente conveniente: Lula não aparece isolado tentando impor sua agenda ao Congresso. Aparece negociando e obtendo resultados com os chefes das duas Casas. A mudança de cenário é relevante. A PEC da 6×1 estava parada no Senado desde o fim de maio e só foi encaminhada à CCJ por Alcolumbre após conversas com Lula. A reaproximação entre os dois abriu caminho para que aliados do governo assumissem as relatorias de pautas estratégicas.
O Congresso também ganha
Motta e Alcolumbre não estão simplesmente fazendo um favor ao Planalto. Os dois também podem capitalizar politicamente a agenda. Ao participar da construção de medidas populares, o comando do Congresso se apresenta como capaz de entregar respostas ao eleitorado, em vez de funcionar apenas como contraponto ao Executivo.
Isso ajuda a explicar por que a fotografia dos três é mais relevante do que uma simples negociação de pauta.
O timing é o ponto decisivo
O Congresso terá entre 31 de agosto e 4 de setembro seu último grande esforço concentrado antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. É uma janela estreita para Lula transformar negociação política em entrega concreta.
Por isso, a estratégia tem duas camadas.
Primeiro: aprovar medidas com impacto perceptível para o eleitor.
Segundo: construir a narrativa de que Lula conseguiu fazer o Congresso funcionar em torno de demandas populares.
Não por acaso, o próprio Lula já havia levado a 6×1 e as “blusinhas” para seus discursos de campanha. Em ato no Rio Grande do Norte, há poucos dias, o presidente vinculou as duas pautas à necessidade de eleger um Congresso alinhado às suas propostas.
O risco
O ativo só se transforma em ganho eleitoral se houver entrega. A 6×1 ainda precisa vencer a CCJ e o plenário do Senado. Se o texto for alterado, terá de voltar à Câmara. A MP das blusinhas precisa passar pelas duas Casas antes de perder validade. Ou seja: o almoço produziu um acordo político; ainda não produziu uma vitória legislativa.
Mas produziu algo que Lula precisava neste momento da campanha: uma agenda capaz de falar simultaneamente com trabalhadores, consumidores e eleitores de diferentes campos ideológicos — e uma imagem de que o presidente voltou a ter capacidade de coordenar Câmara e Senado.
É aí que está o verdadeiro valor eleitoral do encontro.







