Delfim, Ciro, Lula, Haddad e Camilo: a “traição” e seus intensos desdobramentos

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Ciro e Haddad em encontro casual durante evento em Fortaleza (2019): as sequelas ficaram, mas a política tem poder cicatrizante.

O fato político da semana partiu de Antônio Delfim Netto, nada mais, nada menos do que o tecnocrata que serviu à ditadura militar e até participou da reunião que decretou o famigerado Ato Institucional Nº 5. Descontraidamente, em entrevista ao jornalista Pedro Bial (Conversa com Bial, da Globo), na última segunda-feira, o ex-ministro da Fazenda relatou o que considerou ser a “traição” de Lula contra Ciro em 2018.

“No fundo, se eles não tivessem traído o Ciro, o Ciro tinha sido eleito. Eu não tenho a menor dúvida sobre isso… o PT não teve a grandeza de ser o 2º na chapa… Seguramente, em 2018, o papel do PT também foi decisivo para a eleição de Bolsonaro. O PT era o tumor de fixação contra o qual Bolsonaro se atracava. Atacar o Ciro seria muito mais difícil e de menor credibilidade por que o Ciro passou incólume pela Lava Jato”, relatou o economista.

Na entrevista, Delfin Netto conta que havia uma adiantada negociação em andamento em que Ciro encabeçaria a chapa que teria Fernando Haddad como candidato a vice. Na época, o jornalista Mario Sérgio Conti revelou a articulação, que foi logo em seguida negada por Haddad.

O caso obviamente não se encerrou nisso. Os desdobramentos se evidenciaram com eloquência. A mais relevante foi a vitória de Bolsonaro. As explosões verbais de Ciro e Cid Gomes contra o PT se explicam em grande parte por causa do ocorrido. Afinal, os dois sabiam bem das negociações que redundaram em “traição”.

Não foi a primeira vez que Lula manipulou as intenções de Ciro. Em 2009, o ex-governador do Ceará mudou seu domicílio eleitoral para São Paulo convencido que foi por Lula. Ciro mantinha o desejo de se candidatar a presidente no ano seguinte, mas certamente não descartaria o plano B de disputar o Governo do Estado mais rico da Federação. Nem uma coisa, nem outra. No Brasil, Lula bancou Dilma. Em São Paulo, o PT foi de Aloísio Mercadante.

Ciro Gomes não se candidatou a nada. Não demorou e retornou a ser eleitor no Ceará. Porém, manteve o apoio ao PT sendo uma das vertentes políticas que sustentaram a 1ª candidatura de Dilma Rousseff a presidente. Depois, em 2014, após brigar para ser candidato a presidente, teve que engolir a seco o apoio do seu PSB (leia-se Eduardo Campos) à reeleição de Dilma.

Foi nas preliminares de 2014 que, no Ceará, os Ferreira Gomes deram uma grande sinalização de boa vontade ao bancar o então pouco conhecido petista Camilo Santana para o Governo do Estado. Tudo na expectativa de que Lula o apoiasse para presidente da República na eleição daquele ano. Sim, avalia-se que só isso para que Ciro topasse apoiar Camilo aqui.

No ínterim entre 14 e 18, deu-se a avalanche da Lava Jato, prisões a rodo e escândalos em cima de escândalos que atingiram em cheio o petismo. Tudo isso e ainda com Lula preso. Criou-se o ambiente de absoluta inviabilidade para uma candidatura presidencial do PT. Qual seria o caminho natural do petismo? Sim, sair da linha de frente e apoiar uma candidatura que não tivesse sido atingida pela hecatombe da Lava Jato.

Por aqui, os FGs mantiveram o firme apoio à reeleição do petista Camilo. No âmbito nacional, havia o namoro para formar a chapa Ciro-Haddad, que jamais se transformou em casamento. Lula banca Haddad numa chapa com o pequeno PCdoB e Ciro parte em chapa pura do PDT. No fim das contas, deu Jair Messias Bolsonaro.

Foi das dores da “traição” que veio o “Lula está preso, babaca!” e a série de outras duras críticas, que até hoje perduram, de Ciro e Cid dirigidas a Lula e ao PT.

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