
Era janeiro de 1976, quando chegamos a Fortaleza, trazidos pelo destino e pela conquista de uma aprovação no vestibular da querida UFC, prêmio suado de tantos sacrifícios, promessa de uma nova vida.
Fortaleza nos recebeu como mãe generosa: serena, de braços macios, cheirando a maresia e à calma. Era uma cidade de fofura desossada, onde o tempo andava devagar e a liberdade de ir e vir era tão natural quanto a brisa do entardecer.
Crescemos com ela. E ela cresceu além de nós.
O genial Patativa do Assaré, impregnado de sagrado saudosismo, eternizou em versos a diferença entre o “Ingém de Pau” e o “Ingém de Ferro”. No primeiro, havia glamour, pureza, poesia e doçura. A alma cantando mais alto que o barulho do mundo. No segundo, o motor ruidoso tomou o lugar da melodia: havia força, havia progresso, mas havia também uma estranheza, uma aspereza, como quem trocou o perfume da flor pelo cheiro do combustível.
E Fortaleza?
A de ontem era o Engenho de Pau, graciosa, poética, humana. A de hoje, o Engenho de Ferro, poderosa, mas ferida por dentro.
Não se trata de negar o avanço, de virar as costas ao progresso. Mas que ele não seja um fardo que esmaga o que há de mais bonito na vida simples! Porque, no afã de crescer, perdemos coisas que não têm preço: a tarde na calçada, a praia sem medo, o estádio cheio de família, a missa do galo celebrada no frio da meia-noite, o velório onde as almas eram encomendadas com tempo e devoção.
Hoje, escondemo-nos atrás de vidros escuros como se fôssemos os criminosos. Mas não somos.
Por ora, deixo o pessimismo guardado para dias mais fracos e me permito nadar na saudade perfumada dos tempos do Engenho de Pau.







