Metalinguagem como saída; Por Angela Barro Leal

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Dentro de uma sacola que não uso desde minha derradeira mudança encontro batons vencidos, cartões de visita, um livrinho de missa de Sétimo Dia, com o morto sorridente na capa (o que fazer com esses saudosos livrinhos é uma dúvida eterna), um lápis sem ponta e um pedaço de papel branco, rasgado sem muito cuidado de alguma página de caderno, trazendo o nome de uma pessoa, encabeçado pelo título de Dr., e um número de telefone. Nome completo, título, número de telefone. Nada mais na frente ou no verso da tira de papel.

Não tenho a menor lembrança de quem seja a criatura que anotou de próprio punho, em caneta tinteiro, com uma tinta que o tempo desbotou, as ditas informações. A denominação é masculina e a letra bem o comprova: um rabisco firme, quase um autógrafo de celebridade, traços apressados de quem devia ter o hábito de assinar receitas, requisições, documentos, de enviar bilhetes autorizando exames para os males alheios ou soluções para questões jurídicas.

O número do telefone não traz prefixo de área: pode ser local ou pode ser ligado a outras cidades. Acredito que seja daqui mesmo, um dos nossos quase extintos 3224, o que reduz a abrangência da investigação mental que empreendo agora. Não se trata de número de celular, mas sim de telefone fixo.

Quem compartilha, hoje em dia, um telefone fixo, eu me questiono. O da minha casa encontra-se desativado há mais de uma década. Inexiste fisicamente, em sua antiga concretude de um aparelho um dia dotado da capacidade de audição e de emissão da voz. E há tanto tempo se foi que sequer recordo a combinação numérica que o identificava, deletada do meu atropelado arquivo de memórias.

Número fixo passou ao domínio restrito de empresas, indústrias, escritórios e consultórios, com as habituais exceções. O que me faz revirar outra vez o pedaço papel, buscando com dedos de cega e olhos de cigana, através da sutileza do toque, o despertar súbito de sensibilidade para a possível pessoa jurídica respondendo pelo nome ou pelo número.

Um pensamento solto passa por minha imaginação feito espuma de nuvens: E se eu ligasse agora mesmo para este telefone, e pedisse para falar com o Dr. Fulano de Tal?

Muito provável que o número não exista mais. Caso exista, muito possível que alguém cheio de desconfiança atenda do outro lado, com um ríspido alô, suspeitando ser um dos golpes que proliferam pelas vias tecnológicas. Bem provável também que o Dr. nem caminhe mais sobre a Terra, tanto tempo passado daquele dia em que empunhou a caneta tinteiro e anotou com segurança dados pessoais, valiosos o bastante para serem guardados.

Talvez tenha me dito o médico, empurrando o papel sobre a mesa do consultório: Qualquer emergência pode falar comigo nesse número. Ou talvez tenha me encaminhado a um colega, capaz de me atender no dito número e indicar, com maior precisão, os caminhos a serem empreendidos para a cura de males que sequer recordo.

Pode também ter sido o contato de um advogado, pressionado para solucionar uma causa da qual não me ficou registro, autorizando meu contato sem restrição de dia ou de hora para encerrar um conflito de interesses no qual eu estivesse enredada.

O passado é móvel e envolve em capa escura seus abismos.

No final, decido que o destino de tudo aquilo à minha volta, sacola inclusive, é o cesto do lixo. A curiosidade sobre quem era o Dr., o que fazia, e por que teria me passado seu telefone vai continuar desatendida. A investigação inútil nada fez além de consumir o precioso tempo que eu havia reservado para escrever esta crônica, que segue desse jeito, assim tão insegura, para os olhos do compreensivo leitor.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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