
Por Paulo Elpídio de Menezes Neto
“Não é só a morte que iguala a gente. O crime, a doença e a loucura também acabam com as diferenças que a gente inventa.” — Lima Barreto, Notas sobre a República da Bruzundanga, publicada pelo editor Jacintho Ribeiro dos Santos, Rio de Janeiro, 1917/1921.
Difícil amar um país que não conseguimos entender. É um aprendizado custoso, que maltrata e confunde aqueles que mais se esforçam por fazê-lo. A tentativa de compreensão é o ponto de partida para a confrontação dos frágeis conceitos de liberdade.
Seguimos, na literatura e na crônica histórica, o retrato impreciso de uma nação cuja construção jamais chegou a completar-se.
A crítica social, produzida ao longo de cinco séculos de formação nacional, seguiu rotas incertas, entre o relato empobrecido de análises superficiais e a sátira. A imprensa e um inexpugnável pensamento conservador travaram os impulsos modernizadores e as novas ideias que buscávamos compreender, lá onde elas se produziam: na velha Europa e no esteio das formulações inovadoras dos federalistas da Pennsylvania.
Por aqui, procurávamos nos desvencilhar de uma língua reservada — o “javanês” —, por ninguém articulada à entrada dos novos tempos civilizatórios que desciam sobre nós com o século das Luzes e o Iluminismo.
Falar “javanês” e a “República da Bruzundanga” foram artifícios de uma ironia veemente e afiada, trabalhada pelo estilo de Lima Barreto na “construção” do Brasil. Uma língua ignorada e afogada em uma cultura vazia de uma nação incompleta — por se fazer, quando Deus permitir.
Bruzundanga é o retrato retocado, com sátira e bom humor, de um lugar onde vive um povo premido por circunstâncias extremas de sobrevivência. Dos eruditos e dos “manda-chuvas” saem, da pena de Lima Barreto, personagens marcantes de uma sociedade mal constituída e inacabada. São atores sem qualquer gosto por “pensamentos mais altos, como a arte e a cultura”. Desse cenário, pouco resta de ficção; é o retrato em sépia de pessoas e figurantes de uma tragedia dell’arte.
Lembram alguns leitores de Lima Barreto — Alfredo Bosi, entre eles — a imagem desenhada por Montesquieu, em suas Cartas Persas, de um estrangeiro que desembarca em um país desconhecido e busca entender o que vê, sente e ignora (Alfredo Bosi, História Concisa da Literatura Brasileira, Editora Cultrix, São Paulo, 1994).
Usbek emerge das páginas de Montesquieu como personagem que abandona a Pérsia, temeroso da perseguição política e dos rigores do absolutismo.
Autores franceses, antecipando-se ao modismo dos “brazilianists” da Universidade de Columbia, já se expunham corajosamente — a exemplo de Usbek — aos riscos da “interpretação” do Brasil. Roger Bastide, Claude Lévi-Strauss, Pierre Monbeig e Charles Morazé, bem como os “missionários” da Mission française dos anos 1930, descortinaram as vicissitudes e as moléstias desse esforço. Não foram poucos, entre esses “visitantes”, os que sofreram constrangimentos de conservadores e de ativistas relutantes — categorias entre as quais ainda nos esprememos, sob o jugo das milícias dos novos democratas.
Dos “brasilianistas” brasileiros, há muito a dizer. Afortunadamente, somos bem servidos por uma notável consciência analítica, que rastreia com visão crítica e honesta estes séculos corridos para os quais procuramos explicação.







