O Brasil que quase não aparece no mapa; Por Rômulo Alexandre

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Por que o país precisa incluir o mar na sua visão de futuro

Quando pensamos no Brasil, o que vemos?

Um território continental, delimitado por fronteiras terrestres e encerrado na linha da costa. É assim que aprendemos na escola, é assim que aparece nos mapas, é assim que, em grande medida, o país se enxerga.
Mas essa imagem está incompleta. O Brasil não termina na praia.

Existe um outro Brasil — vasto, estratégico e ainda pouco reconhecido — que se estende pelo oceano. Um território marítimo de mais de 3,5 milhões de km², conhecido como Amazônia Azul, que amplia significativamente a escala e o potencial do país. E, no entanto, esse Brasil quase não aparece no mapa.

Essa ausência não é apenas simbólica.
Ela tem consequências reais. Aquilo que não é visível dificilmente se torna prioridade. Quando o mar não está presente na forma como representamos o território, ele também não ocupa o centro das decisões políticas, econômicas e institucionais.

O resultado é um país que, apesar de sua extensa costa e enorme riqueza marinha, ainda pensa predominantemente como uma nação continental. Isso precisa mudar.
O oceano não é apenas um espaço geográfico. Ele regula o clima, sustenta a vida, conecta ecossistemas e economias, e influencia diretamente o nosso cotidiano. É base para cadeias produtivas essenciais, abriga infraestrutura crítica — como rotas comerciais e cabos submarinos — e concentra oportunidades crescentes em áreas como energia, alimentos, turismo e biotecnologia. Mais do que isso: o oceano é uma das principais fronteiras do desenvolvimento global no século XXI.

Em todo o mundo, cresce o reconhecimento de que a chamada economia azul será decisiva para enfrentar desafios como a transição energética, a segurança alimentar, a inovação tecnológica e a resiliência climática. Países e regiões estão se organizando para ocupar esse espaço com estratégia, investimento e governança.

O Brasil, por sua vez, está diante de uma escolha clara: ser protagonista ou espectador. As condições para liderar são evidentes. O país reúne uma combinação rara de extensão costeira, biodiversidade e matriz energética em transformação. Pode avançar com força em energia offshore, desenvolver uma pesca mais qualificada, estruturar cadeias de turismo sustentável, fortalecer sua indústria naval e explorar o potencial da biotecnologia marinha.

Mas potencial, por si só, não garante desenvolvimento. Sem coordenação, o espaço marítimo tende a se tornar palco de conflitos entre usos, degradação ambiental e perda de valor econômico. A ausência de uma visão integrada aumenta riscos, afasta investimentos e compromete ativos estratégicos. É por isso que o planejamento se torna central.

O Planejamento Espacial Marítimo (PEM) surge como um instrumento fundamental para organizar o uso do mar, reduzir conflitos, dar segurança jurídica e criar um ambiente mais favorável ao investimento sustentável. Mais do que uma ferramenta técnica, trata-se de um elemento estruturante de política pública e de estratégia nacional.

Ao mesmo tempo, a economia azul exige articulação. Não é um setor isolado, mas um espaço de convergência entre governo, setor privado, academia e sociedade. Iniciativas como a Câmara Setorial de Economia Azul da ADECE, que tenho o privilégio de presidir neste ano, cumprem um papel essencial ao promover diálogo, alinhar políticas e ampliar a capacidade de execução em torno de uma agenda comum.

Mas há um ponto ainda mais profundo — e talvez o mais desafiador: antes de ir explorar o mar, é preciso reconhecê-lo. Isso passa pela construção de uma verdadeira cultura oceânica. Por compreender o papel do oceano na nossa história, na nossa economia e na nossa identidade. Por aproximar a sociedade desse território que, embora essencial, ainda é percebido como distante.

Iniciativas como o Blue Ceará mostram que esse movimento já começou, ao conectar conhecimento, inovação e engajamento em torno do mar.

No fim das contas, a questão é simples. Colocar o mar no mapa não é apenas uma mudança cartográfica. É uma decisão estratégica. É reconhecer que o futuro do Brasil não está apenas na terra que vemos, mas também no oceano que ainda insistimos em ignorar.

Enxergar o país por inteiro pode ser a chave para destravar uma nova agenda de desenvolvimento — mais integrada, mais sustentável e mais alinhada com os desafios do nosso tempo.

Rômulo Alexandre Soares, advogado, mestre em negócios internacionais, especialista em direito internacional e direito do mar e presidente da Câmara Setorial de Economia Azul da ADECE.

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