
O circo aportava ao sertão nordestino guiado por mãos abnegadas, almas vocacionadas a semear uma alegria singela, descalça e barateira. Não eram empresários; eram poetas da própria sobrevivência.
O entrefecho da festa começava no cortejo do palhaço, que ganhava as ruas poeirentas entoando o velho jogral:
— Hoje tem espetáculo?
Ao que a meninada, em coro extasiado, devolvia:
— Tem, sim, senhor!
— E o palhaço, o que é?
— É ladrão de mulher!
Os pequenos ajudantes cobravam a entrada como legítimo cachê daquela folia. Era uma cena avassaladora para o menino matuto, habituado apenas ao silêncio das veredas e aos passadiços do Santelmo e das Pombas.
A lona colorida rivalizava com os filmes de bangue-bangue do cinema local, com as tacadas das mesas de sinuca e com os sussurros dos namoricos na praça, numa época em que a televisão ainda era apenas um sonho distante na chocadeira do tempo.
Hoje, 15 de setembro de 2026, sob as bênçãos de Nossa Senhora da Piedade e na celebração da emancipação das irmãs siamesas, Umari e Baixio, sinto-me privado do festejo.
Fui arrastado por uma avalanche midiática que destila, sem cessar, os ecos e artimanhas do julgamento no Supremo Tribunal Federal.
Lá, contudo, não há espaço para a pureza ou o improviso do velho circo de pano de roda. Trata-se de um Circo de Horrores: o balcão de negócios das estrelas da nossa magistratura e o lento holocausto da nossa Carta Régia.
Assiste-se a uma Constituição reinventada para cada ministro e a nenhum alento para o cidadão de bem. Um palco erguido sobre o cinismo, a manipulação e as narrativas sob encomenda. Afinal, lá do topo da pirâmide, eles se julgam inalcançáveis.
Essa crise “suprema” é apenas a cereja de um bolo amargo, cercada por uma imprensa partidária que fatura com o caos, por um Congresso desacreditado e órgãos de controle facilmente ludibriados pelos “Vórcaros” de ocasião.
Esse espetáculo grotesco não me atrai; recuso-me a ser plateia.
As festividades da Piedade e as emancipações de nossas cidades acontecem hoje, e o tempo me escapa pelas mãos.
Amanhã, quando a poeira baixar, irei em busca de um verdadeiro Circo de Pano de Roda, se é que ainda resta algum sob este céu para, finalmente, me deleitar com a poesia da vida.
Nota: Circo de Pano de Roda é um circo itinerante de pequeno porte, sem cobertura de lona; apenas o picadeiro é cercado por paredes de tecido.
Fortaleza, 15-09-2026.








