Não sou desmancha-prazeres. Tudo acontece por dever de ofício; cumpro minha missão. Quanto mais evito gols, mais recebo elogios. Vivo esse contrassenso: tirar o brilho e o objetivo do jogo, que é justamente o gol. Quando falho, divido todos os elogios com a mãe do juiz que apitou o pênalti mandrake.
Uso as mãos e os pés, controlo o medo em cada jogada, tenho reflexo, técnica, liderança, força mental e física. E ainda dizem que eu devia dormir com a bola.
O goleiro é o início e o fim do time. Herói, vilão, sobrevive da confiança depositada em cada defesa. Santo Agostinho, com certeza, diria que sem evitar gols não há salvação.
A crônica esportiva diz que a posição de goleiro é tão desprezada pela sorte que nem grama nasce onde ele pisa. O grande Barbosa, da triste final do Maracanaço de 1950, acusado de falha e da perda do título, foi condenado por mais de cinquenta anos pela torcida e pela imprensa, contrariando até o Código Penal brasileiro, que não ultrapassa trinta anos de pena em seu rosário de crimes.
O goleiro raramente está na lista das grandes contratações. Não pode falhar. Só vira herói em cobranças de pênalti e defesas impossíveis. E ainda aparece quem diga que, se ele está no gol, é para pegar mesmo. É como o filho travesso entregando ao pai um boletim repleto de notas boas e ouvindo como resposta: “Não fez mais do que sua obrigação”.
O goleiro fica isolado debaixo dos três paus. Mantém o aquecimento sozinho, vê os colegas fazendo coisa errada e não pode corrigir. Na hora da comemoração, precisa correr atrás dos companheiros para sair na foto.
Nas eras modernas inventaram que o goleiro também deve jogar com os pés. Mais um capítulo de dificuldades para os desengonçados e caneludos que ficam perto do alambrado recebendo vaias e xingamentos, sem poder olhar para trás, porque a bola pode entrar.
Santo Afonso Rodrigues (1531-1617), jesuíta espanhol, é o santo protetor dos goleiros. Ele faz tabela com o anjo da guarda, mas, como o futebol é praticado nos fins de semana, vez por outra ambos faltam ao serviço e deixam seus afilhados no sufoco.
Helder Ferreira de Moura é Cirurgião Dentista, especialista em saúde pública, prótese dentária e ortodontia e ortopedia dos maxilares. Membro Fundador da Academia de artes e letras de Cajazeiras.







