
“Usar a lógica contra a lógica”, George Orwell — “1984”
Paulo Elpídio de Menezes Neto
Gilberto Kassab, o empresário de partido com larga experiência eleitoral, aplicou com sucesso o conceito orwelliano de “doublethink”, a capacidade de manter duas ideias opostas na mente ao mesmo tempo e acreditar em ambas.
A peculiaridade desse conceito está justamente em “aceitar mentiras como verdade absoluta, eliminando qualquer contradição entre elas”.
O expediente demonstra, na prática, bons resultados; não coube a Kassab a sua criação, mas dele fez bom uso.
A vantagem do “doublethink” está em como aceitar mentiras como verdade e apagar as suas contradições. Por esses mecanismos, é possível acreditar na própria mentira e descartar o que nela incomoda. A eliminação do passado é um processo eficiente e necessário para a construção da imagem de um futuro útil e adequado.
Ao lançar Caiado à Presidência pelo seu partido, latifúndio de votos reunidos à sombra dos poderes do governo, e como apoio a Lula, Kassab realiza uma bizarra engenharia de conveniência, obra-prima da esperteza das velhas oligarquias do café.
A ambiguidade do “doublethink” acompanha a história política do Brasil, do Império dos Alcântaras ao círculo de companheiros de São Bernardo.
Em linha direta, o PSD de Kassab é uma corruptela grosseira do PSD getuliano de Amaral Peixoto, da ARENA dos generais de 64, do PDS e do PFL, espinha dorsal do que se chamou de “terceira via”… Uma leitura apressada dos textos de Frankfurt traria para a Itália e, de reboque, para o Brasil, o falso brilho da teoria da dependência dos garotos inspirados da USP…








