Projeto de data center da empresa francesa entra em uma etapa mais concreta. Primeira fase terá 150 MW e a configuração atual prevê 565 MW; companhia diz que licenciamento de instalação está avançado

O Grand Réseau, projeto de data center da francesa Qair no Pecém, tem agora uma previsão para sair do papel: o início das obras está programado para o primeiro semestre de 2027.
A informação foi dada pelo presidente da Qair Brasil, Armando Abreu, ao Diário do Nordeste, em entrevista publicada nesta quarta-feira (2). A primeira etapa terá 150 MW de capacidade instalada. Na segunda fase, serão acrescentados outros 415 MW, levando o empreendimento a 565 MW na configuração atualmente prevista. (Diário do Nordeste)
É a principal atualização sobre o Grand Réseau desde que o projeto passou a integrar a nova corrida por infraestrutura digital no Ceará. O número de data centers previstos ou em implantação no Pecém já foi amplamente noticiado. O que muda agora é o grau de definição do projeto da Qair: há uma janela para o começo das obras, uma primeira etapa dimensionada e avanço no processo de licenciamento.
O investimento ainda não está fechado
A Qair não informou quanto pretende investir no Grand Réseau. Abreu afirmou apenas que o empreendimento será “provavelmente o maior investimento pontual da história do Ceará”.
Por isso, estimativas de centenas de bilhões de reais que circularam anteriormente na imprensa devem ser tratadas como projeções ou valores atribuídos ao projeto, e não como investimento oficialmente confirmado pela empresa.
A ausência de um valor definitivo também é compatível com o estágio do empreendimento. O projeto será executado em fases e a companhia ainda não revelou quem serão seus clientes.
Licenciamento avança
A primeira fase já possui Licença Prévia e viabilidade de conexão elétrica, segundo a Qair. A Licença de Instalação ainda não foi emitida, mas a empresa afirma que o processo está em estágio avançado.
A companhia também trabalha nas etapas subsequentes, incluindo a anuência do Complexo Industrial e Portuário do Pecém.
O cronograma de 2027, portanto, depende da conclusão dessas etapas regulatórias e ambientais. (Diário do Nordeste)
Energia é parte central do projeto
O Grand Réseau não foi concebido como um data center isolado da estratégia energética da Qair.
A empresa pretende utilizar eletricidade produzida por suas próprias plantas renováveis para abastecer a operação. No Ceará, a Qair informa possuir cerca de 650 MW em projetos de geração solar e eólica, além de aproximadamente 2 GW em planejamento, envolvendo também armazenamento por baterias, hidrogênio verde e energia eólica offshore. (Diário do Nordeste)
Essa integração é uma das características economicamente mais relevantes do empreendimento. O data center transforma a disponibilidade de energia renovável em uma atividade de maior valor agregado: processamento e armazenamento de dados.
O projeto anterior apresentado pela Qair para o Grand Réseau já previa uma infraestrutura hyperscale voltada a computação em nuvem e inteligência artificial, com sistemas de resfriamento líquido e conexão de alta tensão. A documentação técnica divulgada pela empresa descrevia uma configuração diferente, de 215 MW de capacidade e 300 MW de demanda elétrica, o que indica que o desenho do empreendimento foi alterado desde então. (Coniben)
Quem é a Qair
A Qair é uma companhia francesa independente especializada em energia renovável.
Seu negócio tradicional está na geração de energia e no desenvolvimento de projetos eólicos, solares e outras fontes renováveis. A empresa também atua em armazenamento, gestão de energia e hidrogênio verde. Está presente em diversos mercados internacionais e mantém sua operação brasileira a partir de Fortaleza. (Central de Balanços)
No Ceará, a Qair já possui ativos de geração e projetos em desenvolvimento. O Grand Réseau representa uma mudança de natureza: em vez de apenas produzir energia, a companhia pretende também ser fornecedora da infraestrutura que consumirá essa energia.
É essa combinação que dá ao projeto importância estratégica.
A aposta cearense
O Ceará reúne duas condições que interessam particularmente a data centers de grande escala: potencial de geração renovável e posição privilegiada na conectividade internacional por cabos submarinos.
O desafio é transformar essas vantagens naturais em infraestrutura confiável, competitiva e disponível em escala industrial.
Data centers hyperscale consomem grandes volumes de eletricidade de forma contínua. Por isso, a questão energética deixa de ser apenas um componente de custo e passa a ser parte da própria estratégia de localização.
No caso do Grand Réseau, a Qair tenta controlar uma parcela dessa cadeia: geração renovável, armazenamento, infraestrutura industrial e consumo digital.
O início das obras previsto para 2027 será, portanto, um teste importante. Até lá, o projeto precisará converter licenças, conexão elétrica, infraestrutura e clientes potenciais em uma operação efetivamente financiável.
A novidade de hoje não é que o Pecém entrou na disputa pelos data centers. Isso já está estabelecido. A novidade é que o Grand Réseau ganhou um horizonte de implantação: primeiro semestre de 2027, começando com 150 MW e podendo chegar a 565 MW.






