Obituário: Flávio Leitão, entre a ciência e as palavras

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Neurocirurgião, professor, escritor e acadêmico, ele pertenceu a uma geração que ajudou a construir a medicina especializada no Ceará e fez da palavra uma segunda forma de compreender o homem

Francisco Flávio Leitão de Carvalho morreu na noite de terça-feira, 1º de setembro, em Fortaleza, aos 87 anos. Médico, professor, escritor e membro da Academia Cearense de Letras, deixou uma trajetória que atravessa boa parte da história recente da medicina cearense e chega à literatura, à vida acadêmica e às instituições que ajudou a construir.

Há homens cuja biografia cabe em uma lista de cargos. A de Flávio Leitão não cabe.

Ele foi neurocirurgião quando a especialidade ainda dava seus primeiros passos no Ceará, professor de uma geração de médicos, dirigente de entidades profissionais, pesquisador, escritor de contos e estudioso da própria história da medicina. No ambiente familiar, foi marido, pai e avô. Para colegas e pacientes, ficou também a imagem de um médico disponível e generoso.

Seu filho, o neurocirurgião Flávio Leitão Filho, resumiu nesta quarta-feira a dimensão profissional do pai: “Ele foi o introdutor aqui no Ceará de grandes técnicas neurocirúrgicas. Ele inovou a neurocirurgia do estado do Ceará.” (O POVO⁠)

Uma família de letras, música e medicina
Flávio nasceu em Fortaleza em 21 de abril de 1939, terceiro filho do poeta, jornalista e professor José Valdivino de Carvalho e da pianista Maria Adamir Leitão de Carvalho.

A combinação entre cultura e formação humanística veio de casa.

O pai era homem de letras. A mãe, pianista. Um dos irmãos, Vicente Leitão, também seguiria a neurologia. Outro, Tarcísio Leitão, construiu trajetória como advogado trabalhista e vereador de Fortaleza.

A família seria uma espécie de primeira escola intelectual de Flávio.

Antes da medicina, houve o Seminário da Prainha. Flávio permaneceu ali entre os 10 e os 14 anos. Segundo o filho, deixou o seminário porque sentia falta da família. A experiência, porém, não desapareceu: décadas depois, a formação religiosa continuaria aparecendo em seus textos, em sua visão de mundo e em sua relação com a literatura. (O POVO⁠)

Quando tomou posse na Academia Cearense de Letras, em 2017, Flávio lembrou aquela formação. O acadêmico Pedro Paulo Montenegro, responsável por saudá-lo, recordou que os dois haviam passado pelo Seminário da Prainha e associou a chegada do médico à Academia à tradição de médicos ligados às letras no Ceará. (Academia Cearense de Letras⁠)

A escolha pela neurocirurgia
Flávio formou-se em Medicina pela Universidade Federal do Ceará em 1964. Ainda estudante, foi monitor de Anatomia Patológica e exerceu por quatro anos a função de orador oficial do Diretório Acadêmico XII de Maio.

No ano seguinte, especializou-se em Neurocirurgia no Instituto de Neurocirurgia de Porto Alegre, dirigido pelo professor Elyseu Paglioli. Em 1975, fez estágio de aperfeiçoamento no Tufts New England Medical Center, em Boston. Em 2000, já com longa carreira médica, concluiu mestrado em Cirurgia pela UFC. (Academia Cearense de Medicina⁠)

Foi uma formação construída em um período em que a neurocirurgia brasileira se modernizava rapidamente. Flávio trouxe parte desse movimento para o Ceará.

Na UFC, sua carreira ultrapassou o consultório e o centro cirúrgico. Foi subchefe e chefe do Departamento de Cirurgia, coordenou atividades de extensão e chefiou o Serviço de Neurocirurgia do Hospital Universitário Walter Cantídio entre 2003 e 2009. Também integrou o Comitê de Ética em Pesquisa do hospital. (Academia Cearense de Medicina⁠)

Publicou 34 artigos científicos, três deles em revistas estrangeiras, apresentou mais de uma centena de trabalhos em congressos e participou de estudos que iam de tumores do ângulo ponto-cerebelar a Doppler transoperatório em cirurgias de aneurismas cerebrais e morte cerebral. (Academia Cearense de Medicina⁠)

Sua dissertação de mestrado, defendida em 2000, tratou justamente do auxílio ao diagnóstico de tumores do ângulo ponto-cerebelar utilizando inteligência artificial. Era uma indicação de seu interesse por tecnologia médica muito antes de a inteligência artificial ocupar o espaço que hoje ocupa na medicina.

Um construtor de instituições
Flávio não se limitou à prática médica. Participou da criação da Sociedade Nordestina de Neurocirurgia, presidiu a Sociedade Cearense de Neurologia e Neurocirurgia e esteve à frente de um congresso da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, segundo relato do filho. Também exerceu funções no Conselho Regional de Medicina do Ceará.

Na Academia Cearense de Medicina, ingressou em 2002. Tornou-se membro emérito da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, recebeu o Diploma de Mérito Ético-Profissional do Conselho Federal de Medicina, o Diploma de Emérito do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e a Comenda do Mérito Médico da Unifor. (Academia Cearense de Medicina⁠)

Na medicina cearense, portanto, seu legado não se resume ao número de pacientes atendidos ou às cirurgias realizadas. Há uma dimensão institucional: a formação de profissionais, a organização da especialidade e a defesa de padrões técnicos e éticos.

A outra vida: a literatura
Mas talvez seja justamente aqui que a biografia de Flávio Leitão se torne mais singular.

Ele poderia ter encerrado a vida profissional como um respeitado neurocirurgião e professor. Não o fez.

Desde 1993, escrevia contos para as antologias da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores. Presidiu a Sobrames Ceará entre 2010 e 2012 e permaneceu ligado à entidade durante décadas.

Em 2016, publicou A Ventura de Gamalielzinho & Outros Contos e Retórica de Circunstâncias. Também escreveu História da Neurologia e da Neurocirurgia no Ceará, em parceria com o irmão Vicente Leitão, obra que registra parte da história da própria especialidade no Estado. (Academia Cearense de Letras⁠)

Seu ingresso na Academia Cearense de Letras ocorreu em 10 de janeiro de 2017. Ocupou a cadeira 34, cujo patrono é Samuel Uchoa, sucedendo José Telles.

A posse teve algo de simbólico. Flávio chegava à instituição depois de uma vida dedicada à ciência, mas carregava consigo uma herança literária familiar.

No discurso, confessou que a possibilidade de ocupar uma cadeira na Academia lhe provocara sentimentos contraditórios. De um lado, a “volúpia ansiosa da imortalidade” e a possibilidade de ombrear-se ao pai, José Valdivino. De outro, a consciência de que aquela vaga havia surgido da morte de outro médico e poeta.

Era a percepção de quem conhecia intimamente a relação entre medicina, literatura e finitude.

O escritor dos contos
Pedro Paulo Montenegro, ao saudá-lo na Academia, chamou atenção para uma característica de sua escrita: a diversidade.

Os contos de Flávio podiam assumir tom jocoso, sensual, religioso ou dramático. Em A Ventura de Gamalielzinho, Montenegro identificou humor e sensualidade. Em A Felicidade, destacou a história de uma órfã marcada pela pobreza e, ao mesmo tempo, pela maternidade. Em outro conto, reconheceu referências à Bíblia e a Dante. (Academia Cearense de Letras⁠)

A crítica de Montenegro talvez tenha captado o ponto central da literatura de Flávio: a experiência médica não havia reduzido seu olhar sobre o homem à anatomia.

Ao contrário.

O médico que passou décadas diante da doença e da morte tornou-se também um observador de comportamento, memória, desejo, sofrimento, humor e fé.

Sua literatura era outra forma de examinar o ser humano.

O pai
Há, porém, uma dimensão que os registros acadêmicos não conseguem traduzir.

Flávio foi casado com Maria Emília Esteves de Carvalho e teve quatro filhos: Ana Maria, Flávio, André e Manuela. Deixou cinco netos, segundo informações da família divulgadas após sua morte.

O filho Flávio seguiu a mesma especialidade do pai. Tornou-se também neurocirurgião.

É uma continuidade particularmente expressiva: a medicina que o pai ajudou a consolidar no Ceará atravessou uma geração.

Mas o relato do filho sobre os últimos dias talvez diga mais sobre Flávio do que seus títulos.

Segundo Flávio Leitão Filho, mesmo durante os cuidados paliativos, o pai mantinha preocupação com o sofrimento dos familiares. Quando perguntado sobre dores, procurava tranquilizá-los.

A família lembra que costumava dizer: “Está na Bíblia que você só pode chorar os seus mortos por três dias.”

A frase pode parecer dura. Em Flávio, segundo o filho, era uma tentativa de proteger os que ficariam.

“Realmente o negócio dele era pensar no próximo. Essa era a coisa mais marcante do papai”, disse o filho.

O médico dos pacientes
A sobrinha Júlia Lopes oferece outro retrato. Ela fala de um homem que não fazia distinção entre a importância científica de um caso e a necessidade concreta de uma pessoa.

“Ele foi um médico assim muito querido pelas pessoas, atuou de uma forma muito generosa”, afirmou.

A disponibilidade para atender quem precisava era, segundo ela, uma característica permanente.

É uma lembrança importante porque a neurocirurgia é uma das áreas mais complexas da medicina. O conhecimento técnico, nesse campo, pode determinar decisões de enorme consequência. Para Flávio, pelo relato familiar, a competência profissional não estava separada da relação humana com o paciente.

O homem entre duas academias
Flávio pertenceu a uma tradição particularmente cearense: a do médico que não aceita que a ciência seja suficiente para explicar a existência.

Foi membro da Academia Cearense de Medicina e da Academia Cearense de Letras. Também integrou a Academia Cearense de Médicos Escritores, a Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza e a Academia de Letras e Artes do Nordeste. (Academia Cearense de Medicina⁠)

A passagem por tantas instituições poderia parecer apenas uma coleção de títulos. No caso dele, havia uma coerência.

A medicina lhe deu uma profissão e uma forma de investigar o corpo. A literatura lhe ofereceu outra maneira de investigar o homem.

Na Academia Cearense de Letras, Flávio escreveu que “escrever é um gesto profundamente humano”. A frase, no contexto de sua vida, ganha uma dimensão quase autobiográfica. (Academia Cearense de Letras⁠)

Uma geração desaparece

A morte de Flávio Leitão encerra uma trajetória individual, mas também marca o desaparecimento de um tipo de intelectual cearense.

Ele pertenceu a uma geração para a qual medicina, universidade, instituições profissionais, literatura e vida pública cultural não eram mundos separados.

Foi médico sem abandonar a cultura. Foi professor sem deixar de ser clínico. Foi escritor sem transformar a medicina em mero assunto literário. E entrou para a Academia Cearense de Letras carregando o nome de um pai poeta, a experiência de um cirurgião e a memória de uma família que atravessou diferentes áreas da vida intelectual cearense.

Sua obra médica permanece como registro de uma especialidade que ajudou a desenvolver. Seus contos permanecem como exercício de imaginação. Seus livros históricos preservam a memória de uma medicina que, sem registros como os seus, correria o risco de desaparecer na lembrança das novas gerações.

E há ainda aquilo que não cabe em bibliografia.

O paciente que foi atendido. O aluno que aprendeu. O colega que encontrou nele um interlocutor. O familiar que recebeu cuidado. O leitor que descobriu um contista escondido atrás do neurocirurgião.

É nesse conjunto, mais do que em qualquer título, que se encontra o tamanho de uma vida.

Francisco Flávio Leitão de Carvalho morreu aos 87 anos. A medicina perdeu um de seus construtores. A literatura cearense perdeu um de seus médicos escritores. E uma família perdeu o homem que, até os últimos dias, parecia mais preocupado com os outros do que consigo próprio.

Nota editorial: há uma pequena divergência nas fontes sobre o número de netos e alguns detalhes do nome da esposa. A correção, se for o caso, ocorrerá.

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