A entropia na prática; Por Angela Barros Leal

COMPARTILHE A NOTÍCIA

A boca metálica abocanha o piso da sala. As mandíbulas se fecham, desajeitadas, sobre a camada do que um dia foi o piso de uma casa. Puxam com força no rumo ao chão, dois andares abaixo, o amontoado confuso de tijolo e cimento, de massa e cabos de ferro em que a casa se transformou. O terceiro andar, logo acima, já foi inteiro devorado. O primeiro andar aguarda sua vez, estremecendo a cada mordida mecânica.

Os olhos das portas e janelas já foram vazados antes do ataque. O sol penetra pelos espaços expostos exibindo azulejos íntimos de cozinhas e banheiros. Vejo a olho nu o que deve ter sido um quarto de criança, uma sala sem visitas.

O pescoço longo da máquina, copiado do impossível cruzamento entre uma girafa e um dinossauro, move-se com precisão de um lado a outro. Uma parede pintada de azul exibe de imediato a rachadura que a derrubará por terra, e desaba inteira no segundo impacto lateral da cabeça do monstro, acrescentando mais uma camada de detritos à montanha que cresce logo abaixo, em ambições de pirâmide.

A máquina ruge, urge, apita e assovia a intervalos irregulares. Cada movimento dela causa um resultado concreto, imediato, que acompanho em posto privilegiado, da janela da minha casa. Janela bem fechada, é evidente. Um turbilhão de poeira ergue-se em nuvem até os primeiros andares dos prédios vizinhos, desencorajando qualquer ideia de abrir os vidros.

Um ou outro pombo desalojado ainda se encoraja a buscar seu antigo pouso. As telhas vermelhas que cobriam o bloco já foram retiradas, e estão enfileiradas do lado mais distante, onde o efeito destruidor do guindaste não alcança.

Assisto de camarote à operação de desmonte com a curiosidade de quem assiste a um vídeo, com direito a áudio quadrifônico, estereofônico, em tempo real. Até chegar a esse ponto, o caso da derrubada do edifício – na realidade, de um conjunto de edifícios de pequeno porte – rendeu matérias em jornal, postagens nas redes sociais, repercutiu na TV local e nacional.

Havia quem não quisesse abandonar o prédio, e o processo de desocupação arrastou-se por alguns anos. Solucionada a questão entraram em atividade as máquinas, como essa que vejo agora, em pleno trabalho de escrever uma nova história no perfil do bairro.

E como escreve rápido, o guindaste incansável, uma caneta metálica a morder, empurrar, puxar, indiferente à solidez do que apareça diante de si. Ao final do dia, quando volto à janela para fiscalizar informalmente o andamento do trabalho, o que resta são ruínas, um empilhado de materiais de forma e cor indefinidas, como o que vemos nas imagens de guerra.

Onde havia três andares existem agora os pilotis. Impressiona, a rapidez com que se derruba alguma coisa, em qualquer que seja o sentido do verbo. O que deve ter levado um bom tempo em construção, considerando todas as etapas necessárias para erguer aquele conjunto de edifícios, começa a ser desfeito em poucas horas, com um número limitado de movimentos.

Isso é um exemplo da entropia – lembro o que costuma dizer meu marido, professor de Física, quando insiste em me explicar uma teoria que só entendo na simplicidade da colocação: Tudo evolui para a desordem. Tudo tende ao caos. Assim, o conceito se torna mais fácil de absorver: real, visível, palpável, como sabemos, por experiência própria, eu e todas as donas de casa. Ou como sabe qualquer criança, nascidos que somos com a mensagem inserida no nosso DNA, de que é sempre mais fácil destruir do que construir.

No fim do dia a máquina para. Seu longo pescoço enrosca-se sobe si mesmo em direção ao peito, como um animal em repouso após um dia fatigante. A rua é liberada dos cones amarelos que interrompiam o trânsito daquele trecho do quarteirão. A poeira repousa nos meus móveis, nos móveis dos imóveis vizinhos. A vida volta ao normal. Amanhã o monstro retoma sua missão destrutiva. E eu que me acostume a essa paisagem do caos em estado puro.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

PSD dos “Domingos” leva Comissão de Orçamento do Congresso e reforça musculatura para a vice no Ceará

Focus/Atlasintel: Lula abre larga vantagem no Ceará e reforça ativo eleitoral de Elmano para 2026

Pesquisa Focus/Atlas para o Senado Ceará: Cenários embolados com Cid favorito; sem sua candidatura, Luizianne salta

Pesquisa Focus Poder + Atlasintel: Ciro e Elmano empatam na corrida ao Governo

UFC entra no Top 15 nacional de patentes e reforça posição como polo de inovação

Governo do Ceará: Pesquisa Focus Poder/AtlasIntel será divulgada nesta segunda-feira

PIX vira vitrine global: fundador do Web Summit diz que sistema brasileiro “destrói monopólios” e inspira o mundo

Em meio à batalha judicial, Eneva e Diamante iniciam investimento de R$ 6 bi em energia e infraestrutura no Pecém

O Ceará em meio ao confronto bilionário entre o Rei dos Ventos e o Rei do Gás

Atlasintel reage à decisão do TSE

A palavra “traidor” muda de lado na disputa política cearense

Cid admite disputar Senado e movimenta xadrez político de 2026 no Ceará

MAIS LIDAS DO DIA

Banco Central acaba com limite de R$ 500 para Pix por aproximação

GM prepara mais dois carros para fabricar no Ceará

Diferença no preço do metro quadrado em Fortaleza chega a 486%

A inteligência emocional continuará sendo uma vantagem competitiva na era da IA

Motoristas poderão resolver acidentes sem vítimas pelo aplicativo da AMC em Fortaleza

Com a chinesa MG Motor, polo automobilístico cearense ganha escala em tempo recorde

TST nega indenização a veterinário demitido por comentário racista contra participante do BBB

Indicado por Bolsonaro ao STF, presidente do TSE alerta que discurso de ódio ameaça a democracia

Avine projeta R$ 460 milhões em faturamento e amplia investimentos no Ceará