Assim como existem músicas que insistem em permanecer soando nos nossos ouvidos existem também histórias que não deixam nossa memória. É assim que justifico a persistência de algo que ouvi ou que li em algum lugar, e que desde então ocupa uma gaveta entreaberta no mobiliário interior da minha cabeça.
A historinha se passa em tempos passados, talvez quando os homens ainda usavam elmos, escudos, lanças e armaduras, e as mulheres se envolviam com graça em metros e metros do mais macio linho egípcio. Consta que foi realizado um experimento em duas ilhas desertas, de médio porte, dois pontos de terra emergindo das águas de um mar que poderia se chamar Egeu, ou Tirreno, ou Mediterrâneo.
Em uma das ilhas, o imaginativo criador do experimento colocou uma centena de pessoas, sendo 99 homens e uma mulher. A outra ilha recebeu quantidade inversa de seres humanos: para ela foram selecionadas 99 mulheres e um único homem. Na história não há detalhes sobre como se teria dado a escolha dessas criaturas do sexo masculino e do sexo feminino.
Dias e meses se passaram. O sol nasceu e se pôs sobre as ilhas e seus moradores. O luar reluziu cheio, novo, em quartos crescentes e minguantes sobre morros e rochedos. As águas salgadas lavaram a orla das ilhas. Chuvas encheram suas fontes de água. As estações se sucederam. Ao final de um ano, o autor do experimento retornou às ilhas para avaliar o que sucedera naqueles 365 dias.
Na primeira delas, ele convocou os moradores e contou as cabeças uma a uma: havia 45 homens, uma mulher e uma criança. Os 45 homens eram os remanescentes de um ano de batalhas entre os 99 que tinham sido ali colocados, combatendo entre si com suas lanças, defendendo-se com seus escudos e armaduras, eliminando-se uns aos outros.
Enfileiraram-se cansados, feridos, mutilados, porém ainda com forças para contar sobre as lutas enfrentadas pela posse da mulher, e pela paternidade da única criança.
O quadro era bem outro na segunda ilha: um ano depois, na visita do criador do experimento, encontrava-se ela populada por 99 mulheres, 99 bebês e o único homem.
Quando menos espero, e a propósito de coisa nenhuma, retorna à minha mente essa historinha. Não tenho justificativa para a permanência dela na lembrança, como também não sei interpretar seu significado por detrás das palavras e do desenho esquemático das situações.
Pode ter sido criada para mostrar a superioridade masculina, tendo um único homem o poder de fecundar um mundo – e imagino esse pai de todos repousando em seu harém particular, usufruindo da atenção das mulheres, ouvindo na santa Paz as gloriosas manifestações de vida dos seus 99 descendentes.
Ou, ao contrário, a historinha defende uma ampla superioridade feminina, as mulheres protagonizando a gestação de universos, cabendo a nós a responsabilidade de popular a Terra.
Talvez a narrativa tente simplificar o contraste entre testosterona e estrogênio, entre o clamor guerreiro e o zumbido tranquilizador dos ambientes caseiros, mas ignoro qual seja de fato a sua moral. O que sei é que o enigma das duas ilhas acabou de deixar mais uma vez minhas gavetas mentais, e vai continuar me perturbando o restante do dia.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







