
Os progressistas brasileiros, não adianta lamentar, irão levar para a História o legado de uma grave omissão. Foi nos vinte anos entre o início do primeiro governo do social-democrata Fernando Henrique (1995) e o fim do primeiro mandato da socialista Dilma Rousseff (2014) que o crime organizado no Brasil, representado por facções de alcance nacional, realizou sua “acumulação primitiva de capital” no narcotráfico e hoje se irriga dentro da própria estrutura do poder público, controlando prefeituras e territórios e atuando, inclusive, com CNPJ e certidão do Serasa em diversas cadeias produtivas da economia, inclusive a Financeira – o coração do sistema.
Definitivamente, não foi oferecida reação do Estado minimamente compatível com a dimensão do problema e a responsabilidade maior é mesmo de quem governa, ponto. No Brasil, a direita cresceu, e se fortaleceu ao ponto de ousar dizer seu nome, no vácuo dessa omissão, que tem causas várias, mas não formam o objeto deste artigo e podemos retomá-las em outra oportunidade.
O que foi dito acima, aqui é apenas contextual. Fato é que, abraçada à bandeira nacional, a direita acolheu essa dor e fez dela sua causa maior: a violência, e não a fome ou a liberdade, passou a representar, no discurso conservador, a causa magna de sua legitimação política.
Tomando agora o nosso Ceará como ponto de observação, algumas lideranças conservadoras de real carisma, na esteira do déficit notório, tentaram vencer disputas majoritárias com discurso sobre Segurança Pública, valendo-se de uma das três emoções básicas da nossa frágil humanidade: o Medo. Perderam todas. Uma a uma.
Daí, é frequente a pergunta: por que, sendo uma experiência social de relevante gravidade, a bandeira da Segurança não se traduziu ainda em vitória eleitoral? Dita a pergunta de outro modo, mais indicativa de uma possível resposta: por que, apesar do B.O. geral que virou esse país, ninguém coloca um delegado para governar estados e prefeituras em lugar nenhum?
Se você espera uma resposta definitiva a essa pergunta “de um milhão de dólares”, pode parar sua leitura: não tenho. Mas posso lhe indicar uma trilha segura de prospecção, pouco explorada, mas pertinente. Lá vai.
Quando os institutos de pesquisa perguntam aos eleitores “qual o principal problema” da coletividade, no Brasil de hoje, a resposta, em qualquer lugar, é a mesma, com pequenas variações percentuais: Violência e Criminalidade, isto é, face às responsabilidades públicas: Segurança.
No modo preliminar, oportunistas vêem nisso uma alavanca providencial de votação. E é, claro, se o sujeito de representação demonstrar algum aspecto de aderência ao universo da questão. No entanto, o buraco é mais embaixo e há outros aspectos que relativizam a impulsão eleitoral desse apelo ao medo que perturba a sociedade.
Se o pesquisador mudar um pouco a pergunta, tais aspectos se revelam. Pergunte, então, sobre o nível de confiança que o eleitor consultado tem na possibilidade de resolução dos problemas principais apontados: Segurança, Saúde, Emprego, Custo de vida, Educação. O que ocorre, no caso? Simples: a ordem se inverte e a Segurança sai da primeira para a última posição em expectativa real de solução.
Aí meu leitor começa a compreender o tamanho da bronca: embora sua emoção se veja mais afetada pela cruel insegurança das ruas (e suas tragédias familiares cotidianamente testemunhadas), é este o problema que seu esforço racional compreende como o de solução mais complexa e, portanto, difícil.
E sabe por que? Porque, ao contrário das deficiências da rede de saúde pública ou dos intrincados mecanismos de estabilidade na relação renda x custos, o problema da Segurança é constituído com a enorme contribuição de agentes sociais. Em miúdos: a sociedade é parte do problema! E mais. Ao contrário de Saúde, Educação e Emprego, o crime atua fora dos mecanismos da institucionalidade.
É por isso, em parte, que candidatos que se abraçam à bandeira da Segurança naufragam uma milha antes de alcançar a costa: sua mensagem concentra atenção, pela emoção que mobiliza, mas as propostas oferecidas nunca se mostram suficientes para convencer a sociedade de que “agora vai”. Ou seja, o exercício reflexivo do eleitor no curso do debate eleitoral amadurece sua percepção de que o monstro não será vencido com bravatas e não há no mundo bala suficiente para resolver algo que não é mais apenas um problema: é também – aí é que tá! – um sistema paralelo de soluções precárias, instáveis e de risco, sim, porém imediatas e concretas.
Na atual campanha eleitoral, o candidato a governador Ciro Gomes resolveu priorizar o discurso de combate ao crime como fator de escolha para seu nome, aliado a lideranças de direita que sempre fizeram a narrativa do “prendo e arrebento”. Mas quando foram protagonistas da cena, seus incentivadores atuais foram derrotados, não custa lembrar. Ciro até tenta enfeitar seu maracá com um verniz sistêmico. Até o serviço de inteligência de Israel – péssima referência atualmente – foi lembrado como parceiro possível.
Quieto no seu canto, o trabalhador assiste e, já passado na casca do alho, se pergunta: “será?…”








