
A super sexta-feira das pesquisas para o Governo do Ceará produziu um dado incontornável: Ciro Gomes e Elmano de Freitas seguem concentrando a disputa, mas os três institutos que divulgaram seus resultados entre a noite de quinta-feira e o fim da tarde desta sexta, captaram distâncias bastante diferentes entre si.
Mas, atenção, a rodada de pesquisas só termina com a Atlasintel/Focus Poder na segunda-feira, 21. Trata-se do único levantamento que utiliza uma metodologia própria cuja fotografia se baseia em técnica distinta das pesquisas presenciais. A Atlasintel, que atua em dezenas de países, aborda os eleitores em espaço que reproduz o clima e as circunstâncias de uma urna eletrônica, no qual o eleitor fica frente a frente com um equipamento eletrônico. Ou como diz um interlocutor do Focus, no silênio da urna.
A sequência de levantamentos divulgados entre a noite de quinta-feira e esta sexta-feira ajuda a dimensionar o momento da eleição cearense. Paraná Pesquisas, Real Time Big Data e Datafolha foram a campo praticamente na mesma janela — entre 14 e 17 de setembro —, mas chegaram a resultados diferentes.
O placar da super sexta
| Pesquisa | Ciro | Elmano | Diferença |
|---|---|---|---|
| Paraná Pesquisas | 47,4% | 39,9% | 7,5 p.p. Ciro |
| Datafolha | 47% | 40% | 7 p.p. Ciro |
| Real Time Big Data | 42% | 47% | 5 p.p. Elmano |
No Paraná Pesquisas, Ciro aparece com 47,4%, contra 39,9% de Elmano. Foram 1.352 entrevistas em 58 municípios, entre 15 e 17 de setembro, com margem de erro de 2,7 pontos percentuais. No segundo turno, Ciro aparece com 50,4% contra 42,4% de Elmano.
O Datafolha, divulgado nesta sexta-feira, encontrou praticamente a mesma fotografia do primeiro turno: Ciro 47% e Elmano 40%. Foram 1.204 entrevistas, com margem de erro de três pontos percentuais. O dado mais relevante da série é o movimento: Ciro, que tinha 52% em agosto, passou a 46% no início de setembro e agora aparece com 47%; Elmano avançou de 33% para 37% e chega a 40%.
Já o Real Time Big Data produziu a fotografia mais diferente: Elmano 47% e Ciro 42% no primeiro turno. Foram 1.600 entrevistas entre 14 e 17 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais e 95% de confiança. No segundo turno, entretanto, a distância desaparece: Elmano tem 48%, Ciro 45%, dentro da margem de erro.
A diferença está justamente na distância
É aí que a rodada ganha interesse jornalístico. Paraná e Datafolha contam praticamente a mesma história no primeiro turno: Ciro na frente por sete pontos ou pouco mais. O Real Time conta outra história: Elmano aparece cinco pontos à frente no primeiro turno.
Isso não significa, por si só, que um instituto esteja certo e outro errado. Os três levantamentos são fotografias produzidas por amostras diferentes, desenhos amostrais diferentes e procedimentos de coleta diferentes.
Há ainda um detalhe importante: os períodos de campo são muito próximos, mas não absolutamente idênticos. Paraná entrevistou de 15 a 17; Datafolha e Real Time trabalharam de 14 a 17. Portanto, não há uma explicação plausível para tamanha diferença baseada simplesmente em uma mudança brusca do eleitorado entre as pesquisas.
E aqui entra a metodologia
O tamanho da amostra é diferente:
- Real Time: 1.600 entrevistados, margem de ±2 pontos;
- Paraná: 1.352, margem de ±2,7;
- Datafolha: 1.204, margem de ±3.
Mas tamanho de amostra não explica sozinho a diferença dos resultados. O desenho da pesquisa, a forma de recrutamento, o local e o modo da entrevista, a composição da amostra e a ponderação dos dados também interferem na fotografia final. Esse é um ponto que costuma desaparecer quando os números são simplesmente colocados lado a lado.
E há outra cautela: não se deve transformar automaticamente a margem de erro em uma espécie de “placar de precisão” entre institutos. Margem de erro é uma medida da incerteza estatística de uma pesquisa; não é um certificado de que determinado levantamento esteja mais próximo do resultado final.
O dado mais interessante da rodada
Apesar das divergências, existe uma convergência importante. Ciro e Elmano continuam muito à frente dos demais candidatos. O que as pesquisas desta sexta-feira não resolvem é qual é exatamente a distância entre os dois. Paraná e Datafolha colocam Ciro sete pontos à frente. Real Time coloca Elmano cinco pontos à frente.
Agora, a vez da AtlasIntel/Focus Poder
A rodada ainda não terminou. A AtlasIntel/Focus Poder fecha este ciclo com uma característica que merece ser destacada: não é simplesmente mais uma pesquisa para ser colocada na mesma coluna das demais. A AtlasIntel utiliza entrevistas realizadas pela internet, com recrutamento digital e posterior pós-estratificação da amostra. Na rodada anterior, a pesquisa ouviu 1.834 eleitores, teve margem de erro de dois pontos percentuais e encontrou Ciro com 48,4% e Elmano com 45,8%.
É uma metodologia diferente das pesquisas presenciais. E justamente por isso sua leitura ao lado de Paraná, Datafolha e Real Time é particularmente interessante. Portanto, Não se trata de saber qual instituto “tem razão”, mas sim de entender por que diferentes desenhos de pesquisa produzem fotografias diferentes do mesmo eleitorado.
O tira-teima metodológico
A AtlasIntel/Focus Poder chega, portanto, como o último levantamento da rodada e acrescenta uma variável importante à comparação: uma metodologia digital própria, em vez da entrevista presencial tradicional. É isso que torna o fechamento da rodada especialmente relevante.
Se os números da AtlasIntel se aproximarem das pesquisas presenciais, teremos uma convergência maior sobre o tamanho da disputa. Se novamente aparecer uma distância diferente, ficará ainda mais evidente que o principal fenômeno desta reta final não é apenas quem está numericamente à frente, mas a dificuldade de transformar três fotografias metodologicamente diferentes em uma única leitura do eleitorado.
A eleição, afinal, ainda é uma fotografia, jamais o resultado da urna. Comecei a acompanha pari pasu as pesquisas eleitorais em 1985, primeira eleição para prefeitos de Capital. O caso de Fortaleza foi exemplar: Maria Luiza Fontenele, a eleita, correu por fora e atropelou na reta final. Foi a primeira prefeita petista de uma capital brasileira. No entanto, a pesquisa do Ibope, o principal instituto da época, a colocava em um longínquo terceiro lugar, atrás de Lucio Alcântara (2º) e Paes de Andrade (1º). A apuração dos votos, manual, um a um, mostrou que a fotografia do Ibope estava, muito provavelmente, distorcida ou, simplesmente, errada.
Portanto, uma pesquisa é apenas uma pesquisa. Esses retratos, fieis à realidade ou nem tanto, não decidem eleição e muito menos definem a posição final dos eleitores. Sim os honoráveis cidadãos, usando a cabeça e o coração, têm seus própios motivos para fazer suas opções. E, muito certamente, não colocam resultados de pesquisas na sua lista de motivações.







